
Um Festival de Almada feito de regressos (e um deles é o de Emma Dante)
Num ano em que a vontade popular norteou muitas das escolhas do festival, a programação compõe-se de artistas e companhias conhecidas de Almada. Pela primeira vez, William Forsythe.
Gonçalo Frota in Público 19 Junho 2025 | notícia online
Escreve Rodrigo Francisco, director da Companhia de Teatro de Almada e do Festival de Almada, no texto de apresentação da 42.ª edição do histórico festival de teatro (a decorrer entre 4 e 18 de Julho em nove salas de Almada e Lisboa), que os espectadores “estiveram no centro” da atenção da equipa de programação quando se tratou de escolher estes espectáculos. “Pelas conversas que aconteceram na Esplanada com os artistas, pelo que nos foram dizendo aqui e ali, pelo que nos escreveram, sugeriram, elogiaram, insistiram, perguntaram, protestaram”, acrescenta. Se a escuta daquilo que espectadores têm para dizer norteou as escolhas e apontou para o regresso de vários artistas e companhias, Francisco nota ainda que “também a democracia sairia reforçada, se os nossos democratas se dedicassem a escutar atentamente os cidadãos.”
Esta será uma edição marcada, de facto, por muitos regressos ao Festival de Almada. E se há um ano, a meio do processo eleitoral que ameaçava levar a extrema-direita francesa até ao Eliseu, desembarcou em Almada uma extensa comitiva de criadores do “hexágono” (Olivier Py, Samuel Achache, Mathilde Monnier e Jeanne Desoubeaux), França volta a ter uma forte representação no festival de 2025. A diferença é que este ano não se verifica a mesma tendência para espectáculos com um perfil musical. E os resultados eleitorais que enquadram este festival agora são outros e mais próximos, justificando a vontade de fazer ecoar a escolha popular, estruturante da democracia, durante estas duas semanas.
Serão franceses, desde logo, os dois primeiros espectáculos do festival. Qui Som?, dos Baro d’Evel, marca o regresso da companhia franco-catalã, depois de aqui ter apresentado, em 2022, Falaise. Agora, dias 4 e 5 de Julho, no Centro Cultural de Belém, em vez de pombos e de um cavalo branco, os bailarinos partilharão a cena com músicos, acrobatas, palhaços e um ceramista numa criação que cruza todas estas disciplinas de forma imprevisível – e que passou pelo último Festival d’Avignon. Também de regresso (depois de Bigre ter sido o Espectáculo de Honra de 2018), e com honras de espectáculo de abertura e transmissão em directo na RTP, a dupla Olivier Martin-Salvan e Pierre Guillois (ou seja, a Compagnie Le Fils du Grand Réseau) apresenta no dia 4, no Palco Grande da Escola D. António da Costa, Les Gros Patinent Bien, um cabaré de cartão “inspirado na tradição dos clowns e em Buster Keaton”, descreveu Rodrigo Francisco na apresentação à imprensa esta quarta-feira.
Também de França chegarão S’Assurer de ses Propres Murmures (dia 10, Palco Grande), espectáculo de novo circo do Collectif Petit Travers interpretado por um malabarista e um baterista, o segundo sendo o coração do corpo do primeiro, e Zugzwang (16, Palco Grande), regresso do Galactik Ensemble depois de, em 2023, aqui terem mostrado Optraken. Desta vez, pensam de que forma os corpos se podem mover em terrenos instáveis, questionando a capacidade de adaptação à constante transformação do ambiente – e do mundo.
Três dos grandes regressos deste Festival de Almada, e dois deles já antes anunciados, dizem respeito à renovada oportunidade para acompanhar o trabalho de alguns dos grandes criadores teatrais europeus dos últimos anos: Emma Dante, Thomas Ostermeier e Joël Pommerat. À encenadora italiana caberá o encerramento desta edição, onze anos depois de ter assegurado também a sessão final com a marcante As Irmãs Macaluso. Em Extra Moenia (18, Palco Grande), Dante não segue um fio narrativo, antes constrói o seu espectáculo a partir das improvisações de cada actor sobre as suas personagens, reclamando figuras sem grandes arcos dramatúrgicos, inspiradas no quotidiano siciliano.
Também Pommerat partiu de uma série de improvisações com um actor para a criação de Marius (13 e 14, Teatro Joaquim Benite). No seu caso, improvisações com o actor Jean Ruimi, um homem a cumprir uma pena prolongada numa prisão de alta segurança em Arles, na Provença, a partir da peça homónima de Marcel Pagnol. Marius resulta, assim, sobretudo do encontro do encenador francês com Ruimi, e da colaboração com a encenadora Caroline Guiela Nguyen.
Quanto a Ostermeier, o encenador alemão traz de novo a Almada a obra do escritor francês Édouard Louis, através de History of Violence (9 e 10, Teatro Joaquim Benite), a partir do segundo livro de Louis, num mergulho desamparado na descrição do encontro do autor com um desconhecido, com o qual sobe ao seu apartamento para passar a noite de Natal, situação que descambará numa violação e numa cruel agressão.
Reposições nacionais, dança e marionetas
A habitual ampla mostra do teatro português recente arrancará com uma estreia da companhia da casa (a CTA), numa encenação de Teresa Gafeira que adapta o romance de Peter Handke Um Adeus Mais-que-Perfeito, em que o autor aborda a história da mãe e do que significou ser uma mulher austríaca no período do pós-guerra. Segundo Gafeira, na apresentação, trata-se de uma “escrita nada confessional, acabando por se tornar universal”. De 5 a 17, no Teatro Joaquim Benite
A reposição de espectáculos estreados nos últimos meses contemplará a encenação de Marco Medeiros para Telhados de Vidro, de David Hare (6 Julho, Palco Grande), o terceiro capítulo do projecto “Diário de Uma Republica”, A Casa Morreu, pela Amarelo Silvestre, a partir da colaboração com os fotógrafos Augusto Brázio e Nelson D’Aires (7 a 11, Academia Almadense), a parceria entre Mala Voadora e Comédias do Minho na reescrita da obra-prima de Aristófanes As Aves (9 a 13, CCB), com pássaros, humanos e deuses a reflectir sobre o poder, a criação de Marco Martins A Colónia (10 a 13, Culturgest), a partir das histórias reais de filhos de presos políticos durante a ditadura portuguesa e da sua passagem por uma colónia de férias, e o monólogo interpretado por Cristóvão Campos Monóculo, Retrato de S. Von Harden (11 a 15, Fórum Romeu Correia), encenação de Rui Neto para o texto sobre um quadro de Otto Dix escrito pelo curador Stéphane Ghislain Roussel.
De Espanha, chegarão o espectáculo El Rey que Fue (12, Palco Grande), que coloca em palco a vida do Rei Juan Carlos, pela companhia (velha conhecida de Almada) Els Joglars, sátira que segue uma reflexão sobre a monarquia espanhola e sobre o percurso político e social do país vizinho durante os últimos 50 anos, mas também El Mar – Visión de Unos Niños que No lo Han Visto Nunca (13 a 17, Academia Almadense), peça de Xabier Bobés que conta a história verídica de um professor primário que decide fazer um jornal com os alunos de uma pequena aldeia de Burgos que nunca tinham visto o mar.
O habitual olhar que o Festival de Almada dedica à dança conhecerá também novos capítulos com a apresentação de Friends of Forsythe (5 e 6 no Teatro Joaquim Benite), uma curadoria de uma das grandes referências da dança contemporânea, William Forsythe, com Rauf Rubberlegz Yasit, e que cruza raízes de danças folclóricas com hip-hop e ballet clássico. Juntam-se a revisitação da peça que Victor Hugo Pontes criou a partir da Inquietação de José Mário Branco, Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer (8 Julho, Palco Grande), criada para a comemoração dos 50 anos do 25 de Abril, e o programa da Companhia Nacional de Bailado que inclui as coreografias Quatro Cantos num Soneto e The Look (17 e 18, Teatro Joaquim Benite), sendo a primeira uma estreia absoluta de Fernando Duarte a partir do universo poético de Camões.
O “Espectáculo de Honra” desta edição, escolhido pelo voto do público entre a programação do ano anterior, garante o regresso de La Tempesta ao Festival de Almada, a 6 e 7, no Fórum Romeu Correia. Ou seja, uma versão para teatro de marionetas (cerca de 150!) e em napolitano do século XVII da derradeira peça de William Shakespeare. As marionetas estão também no centro do trabalho da companhia alemã Familie Floz, autores igualmente do Espectáculo de Honra 2019 (Dr. Nest), que desta vez apresentam Teatro Delusio (14, Palco Grande), peça centrada na história de três técnicos do teatro, colocando os bastidores no palco.
A extensa programação do Festival de Almada inclui ainda o curso de formação O Sentido dos Mestres, este ano a cargo do dramaturgo, encenador e poeta espanhol Alberto Conejero López, uma homenagem à actriz Lia Gama e uma exposição concebida por José Manuel Castanheira que revisita os Espectáculos de Honra do Festival, tradição iniciada em 1987 e que levou ao regresso de 37 espectáculos no ano seguinte à sua apresentação original, escolhidos pelo voto do público.