Um encenador que mudou o rosto do teatro

Gonçalo Domingues in Setubalense 30 Julho 2026

JOAQUIM BENITE

Quando se fala de Almada e do seu impulsionador cultural, é impossível não pensar em Joaquim Benite. Jornalista de formação e homem de teatro por paixão, foi ele quem plantou as raízes do movimento teatral que ainda hoje dá vida à cidade. A sua visão ultrapassou o palco. Quis democratizar a cultura, levá-la a quem nunca tinha contactado com ela e mostrar que o teatro podia ser uma fábrica de sonhos — “ele dizia que tinha uma fábrica de fantasias”, recorda Teresa Gafeira, a mulher que o acompanhou durante mais de três décadas.

Teresa, atriz e cofundadora da Companhia de Teatro de Almada, fala dele com uma lucidez serena, própria de quem partilhou uma vida inteira entre palcos, textos e ensaios. “O Joaquim era um homem extraordinariamente inteligente. Podia ter todos os defeitos do mundo, mas ninguém lhe tirava a inteligência”. Foram 36 anos de partilha, de construção e de luta cultural. Juntos, fundaram o grupo de teatro amador do Campolide Atlético Clube, que, em 1977, se tornou companhia profissional e atravessou o Tejo para fixar raízes em Almada. “Viemos para uma terra completamente diferente do que é hoje. Não havia nada, nem teatro, nem cultura organizada. O Joaquim acreditou que podia mudar isso (…) e mudou”.

Essa mudança materializou-se em dois espaços simbólicos: o Teatro-Estúdio António Assunção e o Teatro Municipal Joaquim Benite. Mas também num projeto maior — o Festival de Teatro de Almada, que continua a ser, décadas depois, o mais importante do país. “Ele criou-o do nada”, lembra Teresa. “Quis mostrar às pessoas o melhor teatro do mundo, para que o nosso público aprendesse a pensar”. E pensar era, de facto, o verbo que melhor o definia. “O teatro dele era um desafio ao pensamento”, explica Teresa. “Não era apenas diversão (…) era um convite a refletir sobre o mundo”.

Benite foi também um pedagogo e um líder raro. No seio da companhia, todas as decisões eram discutidas coletivamente. Trabalhava-se das dez da manhã às três da madrugada, movidos por um rigor e uma paixão quase sagrada. “Nenhum ator dizia uma palavra ou fazia um gesto sem saber porquê. Isso era impensável para ele”, conta Teresa. O respeito, porém, estendia-se a todos — do ator principal à funcionária da bilheteira. “Ele explicava que o espectador era um convidado do teatro e devia ser recebido como alguém que entra em nossa casa”.

Desprovido de medo e de inveja, enfrentou ministros e secretários de Estado com a mesma frontalidade com que discutia ideias com os colegas. Chamou a uma ministra “terrorista cultural” e não se arrependeu. “Ninguém o fazia calar”, diz Teresa, rindo-se da lembrança. “Ele acreditava que, para mudar as coisas, era preciso falar. E ele falava (…) sempre”.

Morreu a trabalhar, como viveu. Deixou um legado estruturado e vivo, que sobrevive treze anos depois da sua morte. “Ele soube preparar o futuro”, diz Teresa com orgulho. “Hoje a companhia mantém-se de pé porque ele pensou em tudo”. Quando lhe pergunto do que mais sente falta, a resposta sai sem hesitar: “Da inteligência. O homem era brilhante”.

Joaquim Benite foi, nas palavras de Teresa, “um fazedor de teatro”. Um homem que transformou a margem sul num centro de criação, que fez do palco um espaço de pensamento e da cultura um direito de todos. Em Almada, o eco do seu trabalho continua a ouvir-se entre as luzes, as vozes e os aplausos que ele tanto soube fazer nascer. O seu nome permanece ligado à cidade, não apenas no teatro que leva a sua assinatura, mas na inspiração que deixou em todos os que acreditam que a arte pode mudar o mundo. Foi isso que Benite provou: que o teatro, quando é verdadeiro, nunca sai de cena.

Texto publicado na edição especial da revista ‘PerflLocal’, da ESE-IPS

Joaquim Benite foi, nas palavras de Teresa, “um fazedor de teatro”. Um homem que transformou a margem sul num centro de criação, que fez do palco um espaço de pensamento e da cultura um direito de todos

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