Teatro: Quando uns podem tudo e outros nada

Companhia de Teatro de Almada leva à cena o clássico 'Medida por Medida', de William Shakespeare.

Ana Maria Ribeiro in Correio da Manhã 01 Novembro 2026 | notícia online

Mais de 400 anos após a morte, William Shakespeare continua atual porque “os homens não mudam: a corrupção; a desigualdade social e sexual; a ânsia desmedida de poder são realidades de sempre”, nota o encenador espanhol Ignacio García, que assina, no palco do Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada, o espetáculo ‘Medida por Medida’, em cena até 29 de novembro.

Tido como um dos textos “mais complexos e sombrios” do autor isabelino, ‘Medida por Medida’ é “ideal para levar ao palco em momentos de convulsão social”, garante o responsável. “A peça mostra-nos um mundo em que ricos e pobres são tratados, a nível da justiça, com dois pesos e duas medidas: aos ricos tudo é permitido; os pobres mal se podem mexer, porque tudo desaba sobre eles”, sublinha o encenador, que diz ter descoberto, num elenco “formidável”, “a vontade e a capacidade para se fazer porta-voz da comunidade”.

André Pardal, Ana Cris, Duarte Grilo, Duarte Guimarães, João Cabral, João Didelet, José Redondo, Maria João Falcão, Marina Albuquerque e Pedro Walter revelaram-se, durante os ensaios, “atores sensíveis ao seu tempo, capazes de levar ao palco aquilo que se está a passar nas ruas”, garante o encenador, que acrescenta que o público compreendeu – e tem reagido – de acordo com essa premissa.

“As pessoas que assistiram ao espetáculo compreendem o paralelo entre o que estão a ver e o que vivem no quotidiano”, afirma, acrescentando que, se há uma mensagem a reter no texto de Shakespeare, é esta: “para que a democracia funcione, quem vota tem de exigir aos governantes que cumpram as suas promessas. No sul, infelizmente, somos demasiado obedientes…”

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