SAUDAÇÕES

Ionescamente divertidos e inquietos

 in Erreguete 09 Julho 2026 | notícia online

A Companhia de Teatro de Almada saúda-nos ou, se preferirem, cumprimenta-nos, revelando no laboratório fotográfico do teatro — e com uma precisão que nem a fotografia alcança — aquelas dinâmicas e tendências nocivas em que o ser humano acaba por cair. Para isso, utiliza três peças breves de Ionesco (Saudações, O Novo Inquilino e Delírio a Dois), nas quais, tal como na fotografia analógica, temos o negativo, o processo de revelação e o de positivação: a luz entra pela lente e atinge o filme. Quando a cena é muito clara, o filme recebe muita luz; quando é escura, recebe pouca. Porém, estas três peças de Ionesco, na encenação de Álvaro Correia, fazem o inverso: quando a situação é escura e até absurda, o teatro ilumina-a e dá-lhe sentido, para que o palco seja um dispositivo de revelação e de positivação.

Correia traz-nos uma visão mais do que realista do que somos. Aliás, há uma estilização teatral com um tom que nos pode lembrar a obra pictórica de René Magritte: elementos figurativos reconhecíveis em contextos com os quais acabam por estabelecer relações desassossegadoras.

André Pardal, Bruno Soares Nogueira, Carla Bolito, Pedro Walter e Teresa Gafeira movem-se nessa estilização de geometrias certeiras, imprimindo todo o sentido da atualidade às personagens e às situações estranhas em que atuam, quase como um subtexto. Desta maneira, conseguem o grande mérito de escapar ao lugar-comum e ao estereótipo do “absurdo”. Posso afirmar, portanto, que é a primeira vez que vejo a dramaturgia de Eugène Ionesco encenada sem que as atrizes e os atores façam absurdezas ou recorram a atitudes, gestos e ações sem sentido nenhum. Há tanto sentido na interpretação — embora utilizem essa fina estilização, com um pouco de exagero, mas sem nunca atingir o grotesco — quanto a inquietação que produzem os diálogos e situações que Ionesco compôs.

Assim sendo, O Novo Inquilino fala-nos, com todo o sentido, de como nos enterramos na acumulação de bens materiais — toda essa mobília que nos afoga e que pode ser a metáfora de tantas cargas e pesos escolhidos. Já Delírio a Dois nos fala da estupidez, da dificuldade em nos entendermos e do egoísmo face a conflitos tais como uma guerra, dando o exemplo desse casal que até discute se as tartarugas são da mesma família que as lesmas e os caracóis enquanto, fora do apartamento, decorre uma guerra. Ou não será esta guerra mais do que o reflexo amplificado da incompreensão estúpida desse casal?

Por fim, Saudações, a mais breve de todas (tal como é assinalado na folha de sala), é uma espécie de sketch que a encenação reparte em três variações — no início, no intermezzo e no final — para abordar os cumprimentos que dão título ao espetáculo. Nelas, nesse ato de saudar o outro, podemos descobrir a estrutura e a geometria nuas das relações humanas. Uma música, a dessas saudações, que também nos é revelada de uma maneira muito lúdica e quase de cabaré, e que acaba com uma cadência perfeita: “E nós? Estamos maravilhosamente bem, estamos ionescamente bem!”. Humor, mas sobretudo, para mim, um universo muito inquietante.

(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)

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