Reencontro com a obra autobiográfica de Marguerite Duras

Adaptação para teatro de Uma Barragem contra o Pacífico, a história de uma família em desagregação e do falhanço da sua parte no projecto colonialista francês. Encenada por Álvaro Correia, em Almada.

in Público 13 Março 2025 | recorte online

Não é fácil ler Suzanne. A personagem que se confunde com a biografia da própria autora, Marguerite Duras, vive entre o desejo de aprovação e a rejeição da mulher que é sua mãe, mantém relações ambíguas com o irmão e com uma mulher com que se cruza, parece esconder sempre as cartas com que pretende ir a jogo, as suas reais motivações ou desejos. Talvez porque é o seu destino que está verdadeiramente em disputa em Uma Barragem contra o Pacífico, romance de Duras adaptado para palco e que a Companhia de Teatro de Almada apresenta, de sexta-feira a 6 de Abril, no Teatro Joaquim Benite, encenado por Álvaro Correia.

Corre o ano de 1931 e uma viúva (Teresa Gafeira) vive com os seus dois filhos (Íris Cañamero e João Jesus) no Sul da Indochina, num bungalow localizado junto ao mar e rodeado de terras pantanosas que boicotam, todos os anos, quaisquer pretensões de tornar aquele lugar uma rentável exploração agrícola. A mãe gastou todas as suas economias na compra daquelas terras a uma corrupta administração francesa da Indochina (se queria terras cultiváveis, a mulher deveria ter dobrado o valor de aquisição, pagando quantia idêntica à oficial por debaixo da mesa), o pai há muito morreu, os filhos vivem sem grande horizonte que não seja o de buscar o amor da mãe e lidar com o delirante sonho desta de erguer barragens que possam conter as águas do Pacífico, de forma a tornar as suas terras viáveis para a prática agrícola. E a filha é tratada como derradeira salvação para a miserável situação financeira familiar — um casamento pode redefinir a sua relação com a sorte.

Esta história de um colonialismo em que os próprios colonos são carne para canhão, traídos pelo Estado que lhes prometia uma vida faustosa longe de França, reduzidos a uma situação de pobreza que tentam enganar com uma casa por terminar, um gramofone que dá ilusões de grandeza, um carro velho que perde peças pelo caminho e um cavalo moribundo, havia de soar a denúncia quando Marguerite Duras publicou o seu romance em 1950. E terá sido essa razão, conta-se, para que o importante Prémio Goncourt então lhe tenha sido negado.

A adaptação de Uma Barragem contra o Pacífico ao teatro — por parte de Geneviève Serreau (datada de 1960) — não estava nos planos de Álvaro Correia, mas a verdade é que o encenador andava mesmo a cogitar uma possível abordagem ao teatro de Marguerite Duras. Só que, como acima escrevíamos, este não é um texto imaginado pela romancista francesa para os palcos. Na cabeça de Correia, fervia, por isso, sobretudo a possibilidade de se atirar a Savannah Bay.

“Quando me fizeram o convite já andava, por isso, a pensar no teatro da Duras — embora este texto não tenha nada que ver com o teatro dela, porque esta adaptação está mais próxima de um realismo poético do tipo do Tennessee Williams, e não tanto na linha daquilo que o teatro dela viria a ser depois”, explica ao Ípsilon. “No fundo, é o romance que está no palco, a adaptação é muito fiel ao arco narrativo do romance. E aceitei porque apareceu-me voltar aqui.”

O verbo é exacto: voltar. Voltar porque Marguerite Duras foi um terramoto na adolescência do encenador. Foi uma autora “muito importante e muito impactante” nos seus “17, 18, 19, 20 anos”, desde que leu pela primeira vez Moderato Cantabile e desatou a colocar os olhos em todos os livros de e sobre Duras.

Esse livro que iniciou Correia na obra de Duras, mãe e filho numa pacata cidade de província, mais um homem com quem ela se cruza no café, tomados por uma tensão crescente — o poeta Claude Roy chamou-lhe “Madame Bovary reescrito por Béla Bartók, se não se tratasse, antes de mais, de um romance de Marguerite Duras (que não se parece com ninguém)” —, foi uma introdução de chofre num universo particular e desestabilizador. “Na obra dela há sempre este tom em que parece que nada se revela completamente”, acredita Álvaro Correia. “Ela está sempre nesse jogo e os romances jogam muito com essas ambiguidades. No Moderato Cantabile, por exemplo, parece que há sempre qualquer coisa prestes a acontecer e que nunca se concretiza.”

Essa relação com a obra de Duras transborda, naturalmente, para a encenação desta Uma Barragem contra o Pacífico. Na forma como Correia dirige Íris Cañamero para essa zona dúbia e esquiva, nos pormenores pedidos aos actores para sublinhar aquilo que o encenador conhece não apenas dos textos, mas também do muito que leu sobre a vida de Duras — sabendo da forte correspondência autobiográfica com as suas criações. É por isso que, convidada a dançar por Agosti (Bruno Soares Nogueira), Suzanne hesita e lança antes um olhar ao irmão, medindo o medo e a paixão que tem por ele. É por isso que Joseph, o irmão na peça, condensa “o terror que a Duras tinha do irmão mais velho, que era completamente delinquente, e a paixão enorme pelo irmão mais novo”. “Não posso dizer que tenha acontecido alguma coisa entre os dois, mas puxei por essa dimensão incestuosa para aqui — que existe também no romance.”

É também esta “forma misteriosa nela, de pegar na sua experiência e depois projectar nos seus romances”, que fascina e cativa Álvaro Correia. E a que o palco lhe permite agora dar uma espessura concreta.

Mãe e filha

O teatro de Marguerite Duras já habitava os pensamentos de Álvaro Correia, mas também estava nos planos de Teresa Gafeira, actriz da Companhia de Teatro de Almada.

“Foi a vontade da Teresa Gafeira de fazer esta personagem da mãe da Suzanne — que é, no fundo, a mãe da Duras” a motivar o convite para trabalharem juntos em Uma Barragem contra o Pacífico. A “relação difícil” entre Duras e a mãe é, aliás, um dos veios principais do texto — a violência na dinâmica familiar, mas sobretudo de mãe para filha: “Estou farta de ter os filhos que tenho…”, diz a mãe na peça. “Uma porcaria de filha como esta, uma boa porcaria de filha, que aceita tudo, come tudo…” Para logo a seguir lhe bater e queixar-se quando a filha consegue “sacar” um anel de 20 mil francos a um pretendente, algo tomado como um insulto. “Eu esperei 15 anos, e eles levaram dez anos para fazer esta picada, morriam nela como moscas… Um anel, em comparação, é de morrer a rir, não é nada, nada.” Em sentido contrário, também os filhos sonham com a morte da mãe e com a libertação que esta lhes trará.

Ora, também na vida real de Duras esta foi uma relação tumultuosa. Álvaro Correia lembra até que, por alturas da publicação de Uma Barragem contra o Pacífico, “ela deu o romance a ler à mãe e esta insultou-a, disse que aquilo era tudo mentira, era tudo invenção”. “Mas há provas de que muito disto aconteceu — ela comprou mesmo a concessão, mandou mesmo construir uma barragem que depois foi destruída, viu-se mesmo diante desta corrupção do poder colonial.”

Esse era um aspecto que interessava também a Álvaro Correia — e que a Companhia de Teatro de Almada reforça com um programa paralelo de conversas em torno do colonialismo, todos os sábados, coordenado pela jornalista do PÚBLICO Joana Gorjão Henriques e pela psicóloga social Iolanda Évora​. Porque esta é uma face pouco vista dos projectos colonialistas, quando os próprios colonos, usados para povoar territórios estrangeiros, são traídos pelo Estado. A história de Uma Barragem contra o Pacífico é também a de uma família em contínua desagregação e refém de um falhanço da sua experiência migrante, de uma mãe que se recusa tanto a reconhecer esse fim sem fortuna quanto a ceder às regras tácitas de uma administração corrupta.

“A mãe não consegue parar, nunca, e tudo aquilo se transforma numa obsessão”, diz o encenador. O dinheiro já acabou, as barragens não funcionaram, as novas plantações estão fadadas ao mesmo triste fim do que as anteriores, e ela insiste. Antes arrastar toda a família para as profundezas daquele pântano do que voltar a França de bolsos vazios.

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