Apeça Reinar depois de morrer, de Luis Vélez de Guevara, tem como base um episódio autêntico da História de Portugal: a execução de Inês de Castro, amante do infante D. Pedro, por ordem do rei D. Afonso IV. As circunstâncias que o levaram, por instigação dos conselheiros, a essa decisão, constituem um drama pessoal que, mais do que um simples fait divers, eleva esse crime à dimensão de um assassínio político, e o episódio à dimensão de uma tragédia, com todos os ingredientes para que a literatura dele fizesse um dos seus grandes temas. A primeira edição, provavelmente de 1652, foi feita em Lisboa já depois da morte de Guevara (1579-1644).
Guevara desenvolve, num estilo já anunciador do Barroco, uma complexidade de sentimentos e de conflitos entre o político e o afectivo que elevam a peça a um grau elevado de construção literária. As vozes têm uma multiplicidade de registos, desde as plebeias às nobres, e transmitem universos bem diferentes, que são postos em cena com uma indiscutível mestria. Também o uso de metáforas e símbolos em que está presente uma sólida cultura clássica coloca Guevara entre os mestres de uma época que, justamente, ganhou o título de Século de Ouro da literatura castelhana, e mais do que justifica que Reinar depois de morrer entre no catálogo inesiano e chegue a um palco na língua portuguesa.
Nuno Júdice
Estreia no Teatro Municipal Joaquim Benite a 25 de Outubro de 2019