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O teatro de Jean Bellorini não tem de brilhar menos do que a feira popular

Liliom — Vida e Morte de um Vagabundo é a estreia em Portugal de uma das imaginações mais férteis do teatro francês. Jean Bellorini encena a vida no subúrbio como uma pista de carrinhos de choque: difícil, para não dizermos impossível, sair-se daqui ileso

Inês Nadais in Público09 jul 2018 notícia online

Na noite em que estreou o seu primeiro espectáculo como director de um dos maiores teatros da periferia suburbana de Paris, o Théâtre Gérard-Philippe, em Saint-Denis (35,6% de imigrantes, 18,1% de magrebinos), Jean Bellorini montou “uma verdadeira feira popular” à porta: bolas de sabão, algodão doce, carrinhos de choque. Eis como abrir uma temporada (e um mandato) com uma metáfora explícita: o teatro, sobretudo o teatro de uma cidade onde se ouvem “70 a 90 línguas diferentes” só no trajecto a pé entre a saída do metro e a bilheteira, como aquele que dirige desde 2014, há-de ser esse lugar onde “todas as classes sociais se encontram”. No mínimo, tem de facto sido o lugar onde este encenador nascido em Paris em 1981, filho de uma médica de clínica geral e de um cardiologista, se vem encontrando com uma criada com hora marcada para voltar a casa dos patrões pela porta de serviço e um aspirante a gangster que por enquanto é só o melhor a anunciar mais uma corrida, mais uma viagem aos microfones de um carrossel dos arrabaldes de Budapeste circa 1909.

Dura há 12 anos, esse encontro. Liliom — Vida e Morte de um Vagabundo, o espectáculo deste 35.º Festival de Almada que finalmente faz chegar o fulgurante teatro de Jean Bellorini a Portugal (segunda-feira, dia 9, às 21h e terça-feira, dia 10, às 19h, na sala principal do Teatro Municipal Joaquim Benite), foi a peça que montou da primeira vez que teve à sua frente um grupo de miúdos de um curso de teatro, e não consegue parar de lá voltar (o grupo de miúdos, aliás, também lhe ficou no sangue: são a sua família de actores até hoje, a família Air de Lune). Na altura, tinha uma memória adolescente deste texto do dramaturgo húngaro e depois argumentista americano Ferenc Molnár (Budapeste, 1878-Nova Iorque, 1952), uma memória que vinha de outra feira popular, o cinema – não a memória mais comum, a do filme de Fritz Lang (1934), outra mais antiga ainda, e que para ele brilha ainda mais no escuro, a da versão original de Frank Borzage (1930).

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