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O mundo de Willy Loman está a ruir – e nós a assistirmos

Numa encenação de Carlos Pimenta, a Companhia de Teatro de Almada traz de novo aos palcos portugueses o clássico da dramaturgia norte-americana A Morte de Um Caixeiro-Viajante, de Arthur Miller. Ou como um homem privado do trabalho vê fugir-lhe a dignidade.

Gonçalo Frota in Público, 17 Abr 2018 

Willy Loman tem 63 anos e é um caixeiro-viajante em vias de ser despedido. Está prestes a acontecer-lhe aquilo que a peça de Arthur Miller, A Morte de Um Caixeiro-Viajante, não faz por esconder no título. Estreado em 1949, em Nova Iorque, o texto coloca-nos diante de um homem em declínio, ainda na ressaca da Grande Depressão, e é habitualmente interpretado como um retrato duro do outro lado do sonho americano – aquele que diz respeito aos perdedores, aos falhados, àqueles que deram tudo à espera de se verem compensados por uma vida de trabalho, mas que se descobrem, afinal, descartáveis e pouco ou nada tendo avançado depois da casa de partida.

Se a crise de 1929 é um fantasma presente na peça, até porque a própria família de Arthur Miller terá sido seriamente penalizada pela depressão que se lhe seguiu, e forçada a mudar-se para Brooklyn – onde Willy Loman, a mulher e os filhos vivem -, Carlos Pimenta não resiste a traçar um paralelo com o clima que ainda hoje se faz sentir depois de as ondas da crise do subprime se terem alastrado por todo o mundo e deixado o Sul da Europa à beira da asfixia. O encenador vê Willy Loman (Ivo Alexandre) não como um homem perturbado e demente, mas como um descartado de uma sociedade capitalista que mastiga e deita fora os trabalhadores a partir do momento em que deixa de lhes reconhecer valor, capacidade produtiva. “Isso é algo que também vivemos hoje em dia”, diz, “esta transformação do mundo que, muitas vezes, as pessoas desta idade sofrem porque deixam de encontrar os mesmos rostos e os mesmos valores. O Willy ficou fechado no seu próprio mundo porque o sonho que ele tinha e que queria construir ruiu.”

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