O “manifesto político e poético” de Emma Dante no fecho do Festival de Almada

Extra Moenia junta uma série de excluídos em palco. Uma marcha da criadora italiana contra a indiferença pelo sofrimento dos outros

Gonçalo Frota in Público 17 Julho 2025 | notícia online

Num primeiro momento, todos/as dormem. Estão numa só fila, indistintos/as nos seus pijamas e nas suas camisas de dormir. Ressonam, suspiram, bocejam entre cá e lá, e permanecem num limbo alheio ao mundo das guerras, da pobreza, das discriminações, da aleatoriedade do destino, das várias violências permitidas e alimentadas pelas cidades em que vivemos. Enquanto uns dormem dentro das fronteiras do centro, protegidos e diante de um futuro com horizontes largos, outros, para lá dessa linha imaginária – mas de efeitos reais –, dormem num lugar em que quase tudo se resume a sobrevivência e uma teimosa (mesmo se ínfima) esperança de que amanhã se possa despertar num mundo ligeiramente menos bombardeado e com um horizonte menos esmagado pelo céu pesado e baixo, a partir de onde não se entrevê qualquer caminho.

“Dormir é como a morte”, explica Emma Dante, dramaturga e encenadora italiana que espraiou a sua visão do mundo a partir da Sicília, onde nasceu e continua a viver e criar, partindo do teatro, mas chegando até ao cinema. O cinema é “um verdadeiro amante”, enquanto com o teatro tem um pacto: “Podemos trair-nos, mas ficaremos juntos para sempre”.

Responde por escrito a perguntas do Ípsilon acerca de Extra Moenia, a peça que encerra o 42.º Festival de Almada, com uma sessão única no Palco Grande (Escola D. António da Costa) hoje. “No sono somos todos iguais: as pessoas com deficiência, os pobres, os ricos, os belos, os feios, os infelizes, no sono todos somos arrastados pela inconsciência, e cada um de nós perde as suas próprias convicções, as suas próprias prisões. Somos livres no sono e, sem fardas, sem papéis, podemos sonhar livremente. Fora dos muros, começamos com o sono e uma canção de liberdade – Bella ciao!

Assim é. Extra Moenia, tradução da expressão latina ex-moenia que significa “fora dos muros da cidade”, com um alcance que não tem de ser meramente literal, tem início com essa galeria de personagens indiferenciadas, num sono vertical diante do público, até que Bella ciao se escuta ainda como canção de liberdade, antes que, olhos abertos e roupa de dormir atirada para o chão, se descubram as roupas que passarão a definir cada personagem, o seu papel social e o enquadramento de tudo quanto farão e dirão daí em diante. São elas (as personagens): Gabry, jogador de futebol de Palermo; o ferroviário; Nabosani, o migrante; a mulher iraniana; o pai, mãe e filho, os três Testemunhas de Jeová; o soldado; um casal; a prostituta ucraniana; a mulher sem-abrigo; a sra. Maria Peppe; e um outro jogador de futebol do Palermo.

A partir daí, com as roupas de trabalho ou que lhes atribuem um papel entre os/as outros/as, Emma Dante introduz de chofre uma série de dramas da vida contemporânea nas cidades europeias – a guerra, as crises migratória, ecológica e da habitação, a tentativa de domínio e a violência contra os corpos das mulheres, a ameaça do fim do mundo, o poder da religião sobre as massas, a lista interminável de proibições ditada pelas normas e interditos rosnados por governos cada vez mais autoritários.

Emma Dante Edoardo Fornaciari/Getty Images

Estou muito irritada com as proibições impostas pelo governo do meu país. Faço teatro para demonstrar o meu direito à liberdade.
Emma Dante

“Aquilo que contamos em cena”, defende a criadora siciliana, “são fragmentos de horror e de beleza. Não pretendo contar tudo o que nos oprime.” Na sua cabeça, Extra Moenia é, antes de mais, “um pequeno manifesto político e social que fala de nós próprios e da nossa incapacidade de sentir empatia perante a dor e o sofrimento dos outros.”

Este “manifesto político e poético” — Emma Dante repete a expressão e abre para a sua dimensão mais lírica — resultou de um processo de ensaios com os actores que lhe deixaram, sobretudo, a memória de “uma avalanche constante de emoções”.

“Os actores e as actrizes caminhavam muito durante os ensaios e, enquanto caminhavam, improvisavam, gritavam e choravam. Foi muito emocionante ensaiar este espectáculo, porque expusemo-nos, despimo-nos e, no final, sentimo-nos unidos. Tudo era possível porque, uma vez que encontrámos a comunidade do grupo, pudemos falar sobre o que nos era próximo, e fizemo-lo sem restrições, sem medo.” Com o contributo de cada actor e cada actriz, trazendo as suas ideias e os seus valores, Extra Moenia foi ganhando esta forma de micro-histórias fragmentárias que se enleiam umas nas outras até criar um quadro de gente excluída pelas mais diversas razões.

Uma condição de excluídos que lembra, em certa medida, aquilo que dizia o crítico de teatro Andrea Porcheddu no livro Palermo dentro. Il teatro di Emma Dante, ao recordar a sua epifania teatral quando assistiu à performance La machine de l’amour et de la mort, de Tadeusz Kantor, no final da década de 1980, em que os actores se encontravam de costas para o público: “As costas de Kantor são, para mim, o teatro. Nessa ocasião, talvez tenha acontecido algo que me ajudou a compreender que fazer teatro seguindo a tradição não me interessava.”

Em Extra Moenia, todas estas personagens encaram o público, olham-no de frente. Mas o perfil de cada uma delas é o de quem é sempre visto pelas costas, não tem rosto nem identidade nas cidades de que se fala, aquelas que o centro todo-poderoso trata com o anonimato de quem delas precisa, mas as não valoriza. E delas teremos, pela mão de Emma Dante, e com aquele seu jeito para impregnar de vida — uma vida palpitante, quase furiosamente real — cada um dos seus objectos artísticos, pouco mais do que um vislumbre. Dando-nos a ver, mas lembrando-nos do quanto continuamos a não ver e a ignorar.

Não cair na armadilha

A escolha de não seguir a tradição, como Emma Dante reconhecia no livro de Porcheddu, tem assumido várias formas desde que, em 1999, criou a Compagnia Sud Costa Occidentale. Em Extra Moenia, diz a própria ao Ípsilon, isso significa “um trabalho de composição de acções, gestos, olhares”, e “uma tentativa de criar um poder simbólico dos corpos em cena”. Num palco quase vazio, “habitado apenas por paisagens de corpos e luzes”, as personagens-tipo de Dante quase vomitam as suas essências, dos pais Testemunhas de Jeová que ensinam o filho a responder que são “a luz” e trazem “a verdade”, ao ferroviário que metralha as paragens do comboio de Castrovillari para Crotone (e que circula com duas horas de atraso), à mulher que diz ao seu namorado que este não está preparado para casar com ela e à prostituta ucraniana que confessa ter perdido tudo com a guerra, sobrando-lhe apenas o corpo.

São fragmentos que se seguem em atropelo, de acordo com uma ideia de espectáculo “mais performativo do que narrativo”, reconhece Dante, “que, desde o primeiro momento, nasceu como o caudal de um riacho, teve de fluir, actrizes e actores tiveram de formar uma comunidade em movimento e no movimento deixar desenrolar-se a vida”. “É um fluxo de emoções, de dor, de alegria, um espectáculo que fala de todos para todos, quase tão elementar quanto comer, caminhar, trabalhar, morrer. A vida nunca tem um enredo preciso, nunca é completamente coerente e não é certamente negociável. Gosto de pensar que, da mesma forma, um espectáculo na sua narrativa pode aproximar-se da vida.”

No entanto, até mesmo estes pequenos fragmentos com que Emma Dante vai polvilhando Extra Moenia são profundos o suficiente para nos confrontar com uma cena de violência sexual ou a descrição de Nabosani (o discurso do homem congolês traduzido pela mulher iraniana, os migrantes a criarem logo pontes para o entendimento), forçado a tornar-se um soldado rebelde, fascinado pela descrição de um amigo num acampamento militar que o convenceu de que “a Europa é como o paraíso”; o paraíso, por outro lado, que os Testemunhas de Jeová acreditam ter dia e hora marcados para se instalar na Terra e pôr fim ao “actual sistema perverso das coisas”; o estado de coisas que leva a que gente haja que não ganha o suficiente para pagar um tecto sobre a cabeça.

São fragmentos que, claro, vão ligando os destinos destas pessoas, coincidentes ou não nalguns pontos, quase todos alvo das proibições que o trabalhador ferroviário, às tantas, começa a vociferar. Se começa por anunciar que “é proibido deixar mochilas, malas e bens pessoais sem vigilância”, logo as proibições se estendem a fumar, cuspir, insultar, jogar à bola, manifestar-se em praças públicas, realizar festas e reuniões, beijar em público pessoas do mesmo sexo, formar “famílias não-tradicionais”, confiar cargos públicos a homossexuais, incentivar a imigração ilegal ou empreender resgates marítimos não autorizados.

É uma mensagem assinada e propagada por um representante das pessoas fardadas, das vestes da autoridade, um rol de proibições que se percebe causar grande irritação em Emma Dante. “Estou muito irritada com as proibições impostas pelo governo do meu país”, refere a criadora italiana. “Detesto a privação da liberdade individual e é por isso que faço teatro – para demonstrar o meu direito à liberdade. Acredito no poder do pensamento que move o corpo, acredito nas viagens, no movimento, acredito que crescer significa, acima de tudo, visitar outros lugares, outros hábitos e tradições, aceitar a diversidade como um acrescento ao próprio crescimento individual. O teatro ensinou-me esta maravilhosa viagem pela dança da vida, onde nada é dado como garantido e cada passo pode levar a tropeções.”

Essa dança, acrescenta Dante, “está sempre em perigo”, colocada em causa pelas “guerras, pela fealdade, pela discriminação e pela violência”. A arte, diz, pode ainda ser um antídoto contra tudo isto e “o único refúgio contra o mal das imposições”. O movimento, para a italiana, é aquilo que constrói comunidade e resistência, quando as pessoas decidem, cada uma a seu ritmo, caminhar numa mesma direcção. Essa caminhada, garante, sempre foi a principal disciplina da sua produção teatral. E é também isso que procura, aqui, oferecer às suas personagens: uma respiração comum, uma forma de viver e de agir partilhada, uma força feita de várias pequenas fraquezas, capaz de não se deixar pisar e de, ao longo de um dia, não cair na armadilha da indiferença diante do sofrimento alheio.

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