Lia Gama: “Tenho uma idade e tantos anos de trabalho que não me chamam para trabalhar, homenageiam-me”

A atriz Lia Gama foi alvo de uma homenagem e fez uma reflexão sobre a distinção.

in Selfie 19 Junho 2025 | notícia online

A atriz Lia Gama mostrou-se surpreendida, mas “muito gratificada e honrada”, por ser a homenageada do 42.º Festival de Almada, a decorrer na cidade e em Lisboa de 4 a 18 de julho.

“Para mim, foi muito inesperado, não estava a contar com nada disso. Mas é o que eu digo: tenho uma idade e tantos anos, tantos anos de trabalho que não me chamam para trabalhar, homenageiam-me”, afirmou Lia Gama à agência Lusa, à margem da apresentação da programação da edição deste ano do festival, no Convento dos Capuchos, em Almada.

A atriz, que completou 81 anos na última semana de maio e que se estreou nos palcos em 1963, saudou a homenagem. “Ainda bem”, acrescentou, foi “uma surpresa muito grande”, mas “não podia, de maneira nenhuma, dizer que não”.

“Sinto-me muito feliz, muito gratificada e muito honrada – e aquelas coisas todas, que são lugares comuns [dizer nestas alturas], mas são verdade, porque é uma vida”, acrescentou.

“No fundo, é a homenagem também a uma vida. Eu sinto mais que é ao teatro e ao que eu represento e com muita honra. Porque eu represento o teatro aqui e com um festival destes que homenageia de tal maneira o teatro, com tanta qualidade”, concluiu a atriz, insistindo que, apesar do ato inesperado, está “muito contente”.

“Aos que nascerem depois de nós” estreou-se em 17 de julho de 1998, como “espectáculo de honra” do festival. Na interpretação musical estiveram ainda Carlos Barretto, Rui Alves, Paulo Gaspar, Jacinto Santos e o mentor dos Ena Pá 2000 Manuel João Vieira.

Lia Gama formou-se na Escola René Simon, em Paris, em 1965-66, depois de um início de carreira ao lado de Raul Solnado, com quem se estreou, em 1963, marcado por comédias nos antigos teatros Avenida e Monumental, em Lisboa.

No regresso à capital portuguesa, fez parte do elenco do Teatro Estúdio de Lisboa, de Luzia Maria Martins, onde interpretou autores como Jean Anouilh e Peter Shaeffer. De seguida trabalhou com o Teatro Experimental de Cascais, em Witold Gombrowicz, Natália Correia, Bernardo Santareno, e com a Casa da Comédia, em obras de Arthur Kopit e Nelson Rodrigues.

O seu nome esteve nos elencos de companhias como Os Cómicos, o Teatro da Cornucópia, A Comuna, o Teatro da Graça. Interpretou os grandes dramaturgos, de Shakespeare a Jean Racine, de Jean Genet a Bertolt Brecht, Rainer Werner Fassbinder e Tennessee Williams. Fez peças de Beniamino Joppolo, Maximo Gorki, J. Jourdheuil, Odon von Horvath, José Cardoso Pires. No Teatro Nacional D. Maria II, esteve em “As Fúrias”, de Agustina Bessa-Luís.

Lia Gama estreou-se no cinema em “Sete Balas para Selma”, de António de Macedo, em 1967, tendo trabalhado depois com António Cunha Telles (“O Cerco” e “Meus Amigos”), Eduardo Geada (“O Funeral do Patrão”, “A Santa Aliança” e “Mariana Alcoforado”), Fernando Lopes (“Nós por Cá Todos Bem” e “Crónica dos Bons Malandros”), Solveig Nordlund (“Nem Pássaro Nem Peixe” e “Viagem para a Felicidade”), Manoel de Oliveira (“Amor de Perdição” e “Francisca”), António-Pedro Vasconcelos (“Oxalá”), João Botelho (“Tempos Difícieis”).

Na televisão, muito antes das telenovelas, entrou em “O Caso Rosenberg”, de A. Ducaux, por Oliveira e Costa, “A Senhora do Cãozinho”. de Tchékhov, por Jorge Listopad, “Os Maias”, de Ferrão Katzenstein, “Por Mares Nunca Dantes Navegados”, de Zita Rocha, entre outras produções, como “Grande Noite” e “Cabaré”, de Filipe La Féria.

Lia Gama recebeu o prémio da Casa da Imprensa pela interpretação no filme “Kilas, o Mau da Fita”, a Medalha 25 de Abril da Associação Portuguesa dos Críticos de Teatro, a Medalha de Mérito Cultural do Ministério da Cultura, em 2006. Em 2019, recebeu o Prémio Sophia de Carreira da Academia Portuguesa de Cinema e o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

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