
Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer
Afonso Becerra in erregueté 13 Julho 2025 | notícia online
Vejo, por segunda vez, Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer de Victor Hugo Pontes, a primeira foi no Teatro Nacional São João do Porto, a 2 de março deste 2025, e volto a ter a mesma sensação de fruição revolucionária.
Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer é uma coreografia que desafia, na estética e nas suas derivações éticas, o estado de liberdades em que nos achamos. Ou, por outras palavras, trata-se de uma peça de dança que não se poderia fazer num pais com restrições em liberdades básicas, relativas à expressão, ou sob as normas do decoro que dita a moral de religiões que proíbem mostrar o corpo nu. Porque nesta peça de dança há uma quinzena de pessoas totalmente nuas, no que diz respeito ao corpo e não só.
A nudez aqui é uma metáfora transparente de liberdade não só no básico, mas também no referido à des-hierarquização, à igualdade das pessoas, eliminando os signos socioculturais e económicos que trazem consigo as roupas e outros elementos com que nos vestimos. Aliás, embora possa parecer paradoxal, essa igualdade na nudez dos corpos é também afirmação da materialidade, da carnalidade e, por extensão, da verdade mais essencial, na respectiva diversidade. Portanto, estamos perante uma comunidade dançante que nos surpreende e cativa pela sua horizontalidade diversa, pela unidade no diferente. Eis um princípio basilar de uma verdadeira democracia: igualdade e respeito pela diversidade. Isto, do meu ponto de vista, é algo muito patente em Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer.
Há quem diga que a história é cíclica. Portanto, cabe-nos não cair na inércia automática do cíclico e, depois de termos atingido um certo estado de bem-estar com muito esforço, regressar às dificuldades de uma vida sob domínio do medo.
Aliás, Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer é um verso do tema Inquietação de José Mário Branco (1942-2019), um dos cantautores mais representativos da canção protesto durante a ditadura de Salazar, e seus anseios revolucionários.
Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer, além do mais, é uma viagem através da história, levando músicas e algumas citações coreográficas, que foram revolucionárias, para a dança, que podem ser reconhecidas pelas pessoas mais eruditas nesta arte, mas que, para qualquer outra espectadora ou espectador, sem essa erudição, vão ser igualmente fascinantes.
Do pouco que eu sou capaz de reconhecer, longe de qualquer erudição, não é necessário sabermos, por exemplo, que aquilo que vemos se refere à Sagração da Primavera de Igor Stravinsky, e as citações “dancísticas” de Vaslav Nijinsky, bailarino e coreógrafo da estreia deste bailado pela companhia de Ballets Russes de Sergei Diaghilev, no Teatro dos Campos Elísios de Paris em 1913, ou da posterior The Rite of Spring, estreada por Pina Bausch em 1975 na Opernhaus Wuppertal, para podermos sentir, nessa música e nesses movimentos, a confabulação das forças primevas, que nos cingem à terra, gritantes de união e liberdade. Também a primavera em que floresceu a Revolução dos Cravos, e todas as primaveras que simbolizam o acordar e o feliz ressurgir da natureza.
Não é necessário conhecer, nem reconhecer, a referência iconográfica à obra pictórica de Eugène Delacroix, intitulada A Liberdade Guiando o Povo, para sentir esse vigor de quem deseja avançar e progredir. Nem é necessário, como já assinalei, nenhuma erudição artística para fazermos essa viagem, através de quadros tão coreográficos quanto teatrais, pela sua composição eloquente, para que, finalmente, toda essa pletora de beleza acorde e estimule a nossa sensibilidade para o mais importante que temos: a liberdade.
(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo. E agradecimentos também pela ajuda para Susana Ferreira e Filipe Carvalho, do acolhimento do festival.)