Festival de Almada regressa com grandes nomes do teatro e da dança internacional de 4 a 18 de julho

Com 19 espetáculos e alguns dos mais prestigiados criadores da cena europeia, o Festival de Almada regressa em julho. Aumento dos custos de produção ameaça, contudo, a sustentabilidade do modelo atual do evento, alerta Rodrigo Francisco, diretor artístico.

in Almadense 15 Junho 2026 | notícia online

Durante duas semanas, Almada vai voltar a ser palco de algumas das mais relevantes propostas de teatro, dança e artes performativas nacionais e internacionais. Entre 4 e 18 de julho, a 43.ª edição do Festival de Almada apresenta 19 espetáculos, distribuídos por oito salas e espaços culturais de Almada e Lisboa. A programação inclui 12 produções estrangeiras e sete portuguesas, trazendo ao público criadores de referência como Anne Teresa De Keersmaeker, Peter Stein, Josef Nadj e Martin Zimmermann.

Além dos espetáculos, o festival volta a apostar numa programação paralela que inclui concertos de entrada livre na esplanada da Escola D. António da Costa, exposições, encontros com artistas e iniciativas de formação teatral.

A abertura acontece a 4 de julho com “Danse Macabre”, de Martin Zimmermann, espetáculo que será transmitido em direto pela RTP2. Situada entre o teatro, a dança e o novo circo, a criação transporta o público para uma lixeira transformada em cenário, onde três figuras marginalizadas procuram sobreviver e criar ligações humanas. A obra substitui “Louise”, inicialmente prevista para a programação.

Outro dos momentos mais aguardados é o regresso de Peter Stein. Aos 88 anos, o encenador alemão apresenta “Platónov”, primeira peça de Anton Tchekhov, centrada na figura de um homem talentoso incapaz de encontrar o seu lugar no mundo. O espetáculo sobe ao palco do Teatro Municipal Joaquim Benite nos dias 5 e 6 de julho e poderá marcar a despedida de Stein dos palcos.

Nos dias 17 e 18, o mesmo espaço recebe “Le Sommet”, criação do suíço Christoph Marthaler, coproduzida pelo Piccolo Teatro di Milano. A peça apresenta uma reflexão sobre a Europa contemporânea através de uma metáfora marcada por desencontros linguísticos, culturais e políticos.

Anne Teresa De Keersmaeker estreia-se no Festival de Almada com “BREL”, espetáculo inspirado na obra de Jacques Brel e construído em colaboração com o bailarino Solal Mariotte. A criação cruza dança contemporânea e canção popular num diálogo entre diferentes gerações. Será apresentada nos dias 11 e 12 de julho, no Centro Cultural de Belém.

Também em destaque está “Israel & Mohamed”, criação do bailarino espanhol Israel Galván e do encenador francês Mohamed El Khatib. A partir das suas histórias pessoais e familiares, os dois artistas constroem um espetáculo que une flamenco e teatro documental e que estará em cena no dia 14. Trata-se de uma proposta que “reinventa os formatos tradicionais do flamenco”, destacou o diretor artístico.

No panorama da criação portuguesa, a Companhia de Teatro de Almada apresenta a estreia de “Saudações”, baseada em três peças curtas de Eugène Ionesco. A produção reflete sobre as falhas da comunicação humana através do absurdo e poderá ser vista no Teatro Municipal Joaquim Benite entre os dias 5 e 17 de julho.

Já o Teatro Meridional, apresenta nos dias 7, 9 e 11 de julho, no Fórum Municipal Romeu Correia, “Happy Days”, de Samuel Beckett, a mais recente criação encenada por Miguel Seabra. Centrada na personagem Winnie, presa num quotidiano marcado pela imobilidade e pela repetição, a peça demonstra a intemporalidade da obra do dramaturgo irlandês. Durante a apresentação da programação, Miguel Seabra destacou Beckett como um “autor mestre da lucidez, mergulha no osso da essência da humanidade, autor luminoso, que acaba por nos libertar”.

Nos dias 13 e 14, o Teatro Nacional São João leva a cena “O Beijo no Asfalto”, de Nelson Rodrigues. Segundo a produção, trata-se de “uma imersão do Teatro Nacional São João num dos ‘clássicos contemporâneos’ da dramaturgia brasileira, com intérpretes brasileiros residentes em Portugal e direção de Tónan Quito”.

Entre as restantes propostas figuram “Fratto X”, de Antonio Rezza e Flavia Mastrella, e “Mussolini”, de Tom Corradini, ambos centrados numa reflexão crítica sobre o poder, a linguagem e os mecanismos de controlo político.

O programa inclui ainda várias abordagens ao texto “A Gaivota”, de António Tchechov, que “revelam a influência que a peça ainda exercer nos criadores”, com espetáculos como “La Lettre”, de Milo Rau, “Só mais uma gaivota”, de Inês Barahona e Miguel Fragata, e “Ansiolíticamente falando”, de Raquel Castro, apresentados nos dias 5, 7, 8 e 12 de julho.

O encerramento do festival está marcado para 18 de julho com “A Gaivota”, de Tchekhov, encenada por Christian Benedetti. Nessa noite será também anunciado o espetáculo vencedor da edição.

No dia 9 de julho regressa ao Teatro Municipal Joaquim Benite a companhia alemã Familie Flöz com “Teatro Delusio”, distinguido pelo público na edição anterior como “espetáculo de honra”.

O Festival de Almada dispõe este ano de um orçamento de 631 mil euros, assegurado através de receitas próprias da Companhia de Teatro de Almada e dos apoios atribuídos pela Câmara Municipal de Almada e pelo Ministério da Cultura.

Apesar da estabilidade registada nos últimos anos, Rodrigo Francisco alertou para o aumento significativo dos custos de produção, considerando que o atual financiamento começa a revelar-se insuficiente para manter o festival nos moldes habituais.

“Desde a pandemia para cá, triplicaram os custos de produção do festival”, afirmou o diretor artístico do evento durante a conferência de imprensa.

Ao ALMADENSE, Rodrigo Francisco recordou ainda que a “subvenção camarária é a mesma desde 2015”, admitindo que “foi difícil manter o palco ao ar livre” nesta edição e acrescentando que algumas cenografias mais complexas deixaram de poder ser transportadas para Portugal devido aos custos elevados.

Questionada pelo ALMADENSE sobre a situação, a presidente da Câmara Municipal de Almada, Inês de Medeiros, garantiu existir “total abertura” para rever os valores atribuídos ao festival, salientando a “importância” do evento para o concelho e reafirmando o compromisso da autarquia com a sua continuidade.

Este ano a personalidade homenageada no festival é o ator e encenador Fernando Gomes. A distinção será marcada pela inauguração, logo a 4 de julho, da instalação “A parodia de um rei sem palácio”, concebida por José Manuel Castanheira.

Em declarações ao ALMADENSE, o ator confessou ter ficado “surpreendido” com a homenagem, assumindo-se igualmente muito “sensibilizado” pelo reconhecimento num dos festivais “mais importantes” do país, sublinhou.

Formado no Teatro Experimental de Cascais, Fernando Gomes colaborou ao longo da carreira com estruturas como o Teatro Aberto, Teatro da Trindade, Maria Matos e Teatro Nacional D. Maria II. Habitual frequentador do Festival de Almada enquanto espectador, participou pela primeira vez na programação em 2022, como ator.

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