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Fazer Brecht como um musical dos tempos modernos

Companhia de Almada estreia sexta-feira o espetáculo "A boa alma de Sé-Chuão"

Maria João Caetano in Diário de Notícias, 17 Out 2018 notícia online

Chen Te só quer ser “boa pessoa”. Mas é tão difícil. Rodeada de pessoas que tentam aproveitar-se da sua bondade e do seu dinheiro, rodeada de corruptos e gananciosos, Chen Te aprende da maneira mais difícil que não se pode ser sempre bom, que às vezes é preciso dizer que não ou ter artimanhas ou ser até um pouco egoísta. Sobretudo quando se tem um filho para cuidar.

Chen Te é a personagem interpretada por Rita Cabaço em A boa alma de Sé-Chuão, o espetáculo que a Companhia de Teatro de Almada estreia esta sexta-feira no Teatro Municipal Joaquim Benite.

A boa alma de Sé-Chuão é um texto escritor pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht entre 1938 e 1941, durante o seu exílio nos Estados Unidos. Com ele, a Companhia de Almada regressa a Brecht depois de ter apresentado, por exemplo, A exceção e a regra (1981), Mãe Coragem e os seus filhos (2000) e Santa Joana dos matadouros (2011). E volta também a trabalhar com o encenador alemão Peter Kleinert, responsável por A exceção e a regra, espetáculo que valeu a Canto e Castro o prémio de Melhor Ator atribuído pela Associação Portuguesa de Críticos de Teatro.

A história é como uma fábula oriental em que três deuses descem à Terra à procura de uma alma boa, identificando-a na prostituta Chen Te. Para recompensarem a sua generosidade, os deuses dão-lhe uma quantia em dinheiro que lhe permite abrir uma tabacaria. Dona de seu próprio negócio, Chen Te não tarda em ver os desvalidos da cidade abusarem de sua bondade. Sem conseguir dizer não, resolve vestir a máscara do mal, travestindo-se de Chui Ta, um suposto primo vindo de longe para pôr tudo em ordem. Disfarçada de Chui Ta, consegue ser mais dura e, até, revelar a alguma maldade. No final, ela já não pensa só em ser boa: “Não quero saber quanto custa, não quero pensar, não quer saber: quero ser boa e ser tigre”.

Uma banda de rock no palco

Esta é a terceira vez que Peter Kleinert encena esta peça. Da primeira vez, em Pittsburgh, tinha um elenco de 24 atores estudantes; depois fê-la na Schaubühne em Berlim e tinha 10 atores mas ficou a pensar “que teria sido melhor ter menos intérpretes”. Então, desta vez, se por um lado tinha limitações orçamentais, por outro lado, ficou satisfeito: em cena estão apenas oito atores que se desdobram numa diversidade de papéis, trocando de roupa e de tom, ora cantando, ora tocando algum instrumento.

“Para mim é importante encontrar uma peça que possa ser feita de muitas maneiras, porque para mim os atores são mais importantes do que o autor. O Brecht é bom porque abre muitas possibilidades”, explica Kleinert. “Aqui, o que me pareceu foi que Brecht queria fazer um musical para a Broadway, na sequência dos outros sucessos que tinha tido. Mas Kurt Weill tinha outros planos e isso não foi possível. De qualquer forma, como há muitas canções na peça eu quis encontrar atores que também fossem músicos e cantores. Portanto, para mim, esta era uma oportunidade para fazer não um musical mas uma peça com muita música.”

Pedro Melo Alves, que no ano passado ganhou o Prémio Bernardo Sassetti (de composição em jazz), é o diretor musical do espetáculo, onde todos tocam guitarras, piano, percussão, transformando-se por momentos numa verdadeira banda de rock.

“No centro do meu trabalho está o ator”, explica Peter Kleinert. “Ele é o mais importante e traz coisas novas para o palco, por isso este espetáculo nunca poderia ser igual aos outros que fiz a partir da mesma peça.” A energia que estes atores trazem para palco é o grande trunfo deste espetáculo.

Encontrar o humor em Brecht

Da China tradicional imaginada por Brecht também sobra muito pouco. “O nosso trabalho é fazer com que a peça fale connosco – temos que a tornar contemporânea. E isso não passa apenas pelos figurinos ou por ter um telemóvel em cena. É trazer aquele pensamento, aquela maneira de falar, aquele tipo de relação entre as pessoas para o presente”, explica o encenador. Neste caso, esse trabalho estava facilitado porque o tema da peça é muito atual: estamos a falar de desigualdades sociais, de pobreza e de riqueza, e também estamos a falar de como é possível “viver de uma forma decente” numa sociedade dominada pela corrupção e pela ambição.

De qualquer forma, Kleinert gosta sempre de abordar os textos numa perspetiva contemporânea e todo o trabalho com os atores começa com improvisações a que depois vai juntando o texto: “O meu objetivo é que o espectador não saiba o que é Brecht ou o que é improvisação. Claro que se falarmos dos turistas sabemos que as palavras não são de Brecht. Mas nem sempre é possível dizer, porque os atores apropriam-se do texto”, explica. Nada é datado.

E a quem ficar surpreendido com o humor do espetáculo, Peter Kleinert explica: “Brecht tem imenso humor, tem mesmo, mas há tantos encenadores que preferem fazê-lo de uma maneira séria, tradicional, dogmática. É um humor muito sofisticado e inteligente, não é óbvio, temos que desvendá-lo. A diferença aqui é que a peça tem humor e nós usamo-lo.”

A boa alma de Sé-Chuão
De Bertolt Brecht
Pela Companhia de Teatro de Almada
Encenação de Peter Kleinert
Interpretação Beatriz Godinho, Érica Rodrigues, Inês Garrido, João Tempera, Miguel Raposo, Pedro Melo Alves, Rita Cabaço e Tomás Alves
Direção musical Pedro Melo Alves
Cenografia Céline Demars
Figurinos Ana Paula Rocha
Teatro Municipal Joaquim Benite, Almada
De 19 de outubro a 11 de novembro
Bilhetes 6,5 a 13 euros

fonte
Maria João Caetano in Diário de Notícias, 17 Out 2018
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