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Equívocos Mortais

“A Família Schroffen-stein”

O texto sobre a encenação de “A Família Schroffen-stein”, Luís Miguel Cintra partilha as constantes dúvidas que o acompanharam na construção deste espectáculo, revelando as dificuldades sentidas ao trabalhar sobre esta tragédia, escrita, em 1801, pelo romântico alemão Heinrich von Kleist, cuja obra dramática tem levantado inúmeros problemas de materialização cénica. O encenador informa, portanto, que está a ensaiar uma hipótese.

A cenografia que ocupa o palco do Teatro do Bairro Alto procura recriar a cena romântica, numa citação directa e inequívoca, tanto pelo cenário pintado, como pela ambiência soturna, a representação de castelos e igrejas, ou, ainda, pelos figurinos que reproduzem os trajes medievais, já que a acção da peça decorre na Idade Média. A cenógrafa e figurinista Cristina Reis expõe, assim, a convenção cénica do palco romântico, convocando, de forma quase museológica, o período da história do teatro em que o texto de Heinrich von Kleist foi escrito, mostrando a própria fragilidade e inconstância das convenções. Cristina Reis estrutura um estudo sobre o Romantismo, proposto com a quase inevitável distância irónica de alguém que o olha a partir do presente.

Mas, se se pretende restaurar para o público contemporâneo a experiência da cena romântica, então o registo dos actores deveria, talvez, ajustar-se às especificidades da representação romântica. Atendendo às já enunciadas características do cenário, que conferem um significado particular aos corpos dos actores e uma expectativa, por parte do público, quanto à forma como estes irão ocupar o espaço que lhes foi atribuído para agir, a representação dos actores deveria ser construída com a violência das paixões. Caso contrário, o cenário poderá ser entendido tão só como uma opção estética e não como uma distanciada recriação histórica. E é o que, em algumas partes, nos leva a crer a encenação de Luís Miguel Cintra, para noutras contrariar o que parecia ter anteriormente afirmado.

O que acontece no espectáculo é que se hesita entre um registo mais teatralizado e um outro mais isento e realista. Esta hesitação provoca alguma perturbação, que não chega a ser integrada pelo espectador como um instrumento de reflexão sobre o que lhe é apresentado, permanecendo, antes, como uma vaga sensação de que algo de incoerente atravessa o espectáculo. É, assim, que os rasgos de genialidade de algumas cenas acabam por ser apagados pela indefinição e pelo, por vezes, penoso ritmo que lhes é imposto.

Entre os momentos potencialmente geniais, há aquele em que Úrsula (Glicínia Quartin) atira um dedo para o meio do palco, na última cena, a seguir aos enganos suscitados pelo disfarce de género dos dois amantes, que trocam de roupa entre si, levando os pais de cada um a matar, na escuridão da gruta, os seus próprios filhos, pensando que estão a matar o filho do seu inimigo. O ridículo e grotesco dedo mindinho, de criança, que Úrsula mostra aos presentes, encerra em si a resolução do sanguinário e falso conflito que opõe a casa de Rossitz à casa de Warwand, confirmando que é por engano que eles se andam a matar uns aos outros. Só que o dedinho chega tarde de mais, depois de várias mortes já estarem irremediavelmente consumadas. Por equívoco.

Paulo Trindade
in Público, 6 jul 2004

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