
Entrevista. Laurenz Laufenberg: “Sei que é perigoso e que me posso magoar mas a ‘História da Violência’ precisa ser contada”
Tiago Bartolomeu Costa in Comunidade cultura e arte 08 Julho 2025 | notícia online
É através do corpo de Laurenz Laufenberg que chegamos à memória do corpo de Edouard, personagem autoficcional criada pelo escritor francês Edouard Louis, não para fazer a catarse da agressão a que foi sujeito na esquina do que parecia ser desejo, mas para melhor poder compreender, e inscrever a violação de que foi vítima num quadro social, político e ético maior. É um corpo que é um não-lugar, até se tornar menos biográfico e mais performativo, mais aberto, mas não necessariamente mais universal, antes expondo as diferentes camadas como cicatrizes, que são dúvidas, de uma história de equívocos que podia ter sido muito pior.
Na encenação que Thomas Ostermeier fez do texto “História da Violência” (Éditions du Seuil, 2016; tradução portuguesa Elsinore, 2019), e estreada na Shaubhune, em Berlim, em 2018, Laufenberg é Edouard, e o único ator, do quarteto de intérpretes, que é constante em todo o espetáculo, como se fosse o epicentro da culpa e o observador da sua história, narrada, roubada, transformada em causa e discurso sobre o racismo, a homofobia, a desconfiança familiar, o preconceito policial e a frieza clínica. Quando terminarem as duas apresentações no 41.º Festival de Teatro de Almada, esta quarta e quinta-feira, dias 9 e 10 de Julho no Teatro Municipal Joaquim Benite, Laurent Laufenberg terá perguntado, 150 vezes a plateias de Taipei a Paris, de Berlim a Nova Iorque se acreditamos na história que nos foi contada. Mas, sobretudo, como é a que a vamos contar depois.
Passaram sete anos desde a estreia do espetáculo, mudou o corpo e o contexto, e foram-se acrescentando as memórias de todas as vezes que teve de começar de novo, como se se pudesse proteger de tudo. O que é que aprendeu sobre si, e esta personagem, com a passagem do tempo?
Não é algo em que pense, mas acho que o meu corpo me diz: “Não vás por aí. Já o fizeste tantas vezes. É [um espetáculo] difícil, é perigoso, não vás.” Mas, como muitas coisas na vida, sei que é perigoso e que me posso magoar uma e outra vez, mas é um privilégio poder interpretar [esta personagem] 150 vezes, viajar pelo mundo para contar esta história, e perceber que onde quer que passemos, toca as pessoas. É uma história que precisa ser contada, e é por isso que eu gosto de entrar pelas partes perigosas, entregar-me e estar por inteiro no palco.
No entanto, sim, as coisas mudaram com o tempo. Tento, como com cada espetáculo, permitir-me a ser vulnerável. É um privilégio viver com um texto por tanto tempo, porque é estranho. Quando comecei a representar, achava que, depois de tantos anos, saberia tudo sobre a peça, mas não é verdade. Esta peça ecoa com o tempo, é uma câmara de ressonância do contexto em que é apresentada porque, sim, tal como a vida muda, também os contextos e as políticas mudam. Descubro coisas novas que me tocam. Por exemplo, no início, eu ficava muito comovido com a história muito pessoal do Edouard, tendo sido violado e procurando lidar com o trauma. É algo que ainda me toca profundamente, mas ao mesmo tempo, penso cada vez mais nas outras personagens, com a sua própria vida e suas próprias perspetivas, e como ele fazem também parte de toda a construção social da peça.

O tempo tornou-o mais consciente da estrutura social da peça?
Acho que sim. Quando começamos a trabalhar na peça, tinha muita raiva da personagem da irmã [Clara, interpretada por Alina Stiegler]. Raiva da sua perspetiva e da sua forma de pensar. Com o tempo, percebi como a perspetiva dela é importante, e como deve ser brutal para ela ter o Edouard de volta a casa dela, depois de ter renegado a sua classe. Ou melhor, não renegado, mas obviamente saído da sua classe para poder sobreviver. [Edouard Louis inscreve-se numa categoria social definida como transfuga de classe]. Essas perspetivas são muito importantes, e também muito delicadas, e por isso importantes de ouvir, de refletir e de serem vistas no palco. E isso é algo que torna esse espetáculo tão importante: são diferentes perspetivas com espaço e tempo para serem para serem vistas e pensadas.
“Quando comecei a representar, achava que, depois de tantos anos, saberia tudo sobre a peça, mas não é verdade. Esta peça ecoa com o tempo, é uma câmara de ressonância do contexto em que é apresentada porque, sim, tal como a vida muda, também os contextos e as políticas mudam.”
O facto de ser o único ator que não interpreta vários papéis, sendo centro e observador da história que está a contar, é algo que estava já presente na escrita do livro do qual esta peça é a adaptação: Como é possível alguém reapropriar-se da sua história. Enquanto protagonista, como observa a apropriação pelos outros da história de Edouard e, diria, da sua própria interpretação?
Isso foi algo com que realmente me debati, também durante os ensaios. Não sei porquê, mas assumi que, uma vez decorado o texto, eu contaria a história e conduziria a narrativa. Ainda é assim, mas também é o contrário. A Alina, uma atriz maravilhosa, assume-a tantas vezes, que toma como sua a minha história — a história de Edouard —, mas também a minha própria, enquanto ator, porque assume o centro do palco. Tal como Christoph Gawenda [que interpreta o marido, de Clara e um polícia], que ao fazer-me perguntas, rouba-me a história, e o ritmo, e leva-me a pensar noutra coisa, como as dimensões racistas no discurso da polícia, quando eu estava a falar sobre a minha história de amor com Reda [interpretado por Renato Schuch]. Como ator, isso é desafiador e divertido, porque nunca se está seguro. Eles podem sempre ficar com a atenção do público, tirar o foco da [minha] história, e acho extraordinário que o Edouard Louis o tenha escrito, mas também que o Thomas tenha escolhido fazer uma encenação que permite a outras vozes terem o seu espaço, e o seu próprio humor. Quando o Edouard fala é geralmente muito emocional, lógico e pessoal, enquanto as outras personagens, porque funcionam como “flashes”, conseguem trazer uma dose de humor à história, ou um pequeno alívio para o público em comparação com a lógica, ou a dimensão social que o Edouard tenta descrever.

Porque o contexto sociopolítico mudou, o que se diz produzem um impacto diferente?
Sim, e isso é algo que nos facilita, porque nos permite manter o espetáculo fresco e, depois de uma apresentação, encontrarmo-nos e dizer: “olha, isso bateu de maneira diferente, não foi?” Ou, de repente, vermos no público uma reação que nos faz perceber: “Ah, as coisas mudaram.” O Thomas Ostermeier interessa-se muito pela verdade, não só da história, mas também da encenação, da verdade da situação no palco. Ele quer que a gente nos envolvamos e que estejamos presentes no momento, como somos agora, hoje. Não importa se dizemos a frase em voz alta ou baixa, como poderá ter querido no início, mas mais “como se sente hoje? O que é que realmente se está a ouvir do outro? Como é que se vai reagir?” E como todos nós mudamos, também essas coisas mudam de um dia para o outro. E a escuta é algo que eu só percebi recentemente. Acho que é uma grande parte, não só da minha interpretação, mas também da história que está ser contada: ter coragem para realmente escutar e aprender uns com os outros.
Uma peça tende a cristalizar-se, e será o contexto que permite certas coisas se tornem mais relevantes, criando uma nova hierarquia.
Sim, com certeza. É sempre diferente, sobretudo num espetáculo em que estou sempre a falar para o público. Estou muito curioso para saber como o público português a vai receber. Lembro-me que, em Nova Iorque, o público estava na ponta da cadeira, apoiando-me enquanto eu falava, dando-me tanta energia. Foi muito especial porque, em Berlim, as pessoas são muito mais contidas, mais observadoras e mais críticas.
Já viram tudo, já conhecem os truques… Mas então, qual é, digamos, o seu método, para uma frase tipicamente americana. Já disse que o corpo lhe aconselha a não ir por aquele caminho. Mas, como é que se protege, ou como é que se propõe a ir para certos lugares?
Faço-me essa pergunta muitas vezes, porque não tenho uma resposta clara. Só posso dizer, como no início, que procuro não me proteger nem dizer “Ok, hoje não vamos tão longe, vai ser mais técnico.” Acho que a resposta mais fácil — ou mais honesta — é: eu simplesmente vou. Porque o modo como o Thomas dirige é muito útil para um ator, porque tudo acontece no palco, tudo acontece ali. E eu descubro, no momento, e no que estou a fazer, as situações e as reações. Eu conto uma história sobre o que me aconteceu, mas é sobre o presente, para o público, e deixo-me levar a partir daí. Às vezes funciona melhor, outras vezes não tão bem ou não tão intenso, mas esse é meu “método”, digamos assim. E acho que o que realmente me ajuda — ou nós, enquanto equipa — é que confiamos muito uns nos outros. E depois de tantos anos a fazer esta peça, somos amigos. Com o Renato, por exemplo, foi a primeira peça que fizemos juntos mas, desde o primeiro momento sentimos que podíamos confiar um no outro, e isso é realmente muito importante. Fizemos este espetáculo antes da criação daquilo que agora se tornou numa prática tornada comum, a coordenação de intimidade. A cena da violação foi criada com todos a assistirem em estúdio, e para mim nunca me pareceu errado ou que estivesse a ir para onde eu não quisesse ir, de modo algum, porque eu confiava totalmente no Thomas, porque confio totalmente no Renato, e em todos os outros. Quando agradecemos, no final, abraçamo-nos e perguntamos um ao outro se está tudo bem, se aconteceu alguma coisa. E esse abraço, se quiser falar sobre algum “método” de proteção, protege-me, porque nos lembra: “estamos aqui, juntos”. Isso é algo muito técnico, mas ao mesmo tempo, mais emocional, talvez…
O autor esteve convosco no início dos ensaios.
Sim, e eu estava nervoso. Disse-lhe o quanto tinha adorado o livro, e o quanto admirava o seu trabalho. Foi a a primeira vez que eu interpretei alguém que conheci. Ele disse algo muito bonito, que confiava em nós, que confiava em mim, que gostava do meu trabalho, que adorava o que o Thomas estava a fazer, e que estava muito feliz por sermos nós a contar a história, para que ele não precise mais contá-la. Isso torna tudo muito especial e muito, eu não diria “fácil”, mas importante. É Importante para mim contar essa história. É Importante deixar-me ir para zonas mais duras, porque fazem parte da história, fazem parte do todo. Sou muito grato por não ter de viver isso na vida real, e apenas no palco, mas porque é a história dele que estou a contar, deixo-me ir.

No livro, mas também em entrevista, o Edouard Louis fala de distância, para poder compreender. Não quer fazer a catarse do trauma, apenas contá-la. Essa distância foi-lhe útil? Como é que o observou?
Sobretudo, tive de compreendê-lo de forma lógica… Não procurei uma imitação, mas guardei, apenas por graça, um gesto que ele fazia de ajeitar o cabelo, que não sei se continua a fazer. Sei que na minha escolha foram preponderantes as semelhanças físicas, mas queria compreendê-lo emocional e logicamente, se ia embarcar, por toda a noite, numa parte da sua vida, experimentando os seus desejos e os seus medos. Era mais importante entendê-lo do que imitá-lo.
“Todos nós criamos uma personagem a partir de nós mesmos, dependendo do ambiente em que estamos.”
Ele tem muita consciência de si e da imagem contra a qual luta. Há uma passagem muito curiosa, quando a irmã diz ao marido que se ele ficar duas semanas na terra da qual fugiu, precisa de se ir embora, porque sente que é como se tudo voltasse, aquilo contra o qual lutou. Para um ator, deve ser um desafio interpretar alguém que está, também, num processo de representação.
Sim, de certa forma, todos nós criamos uma personagem a partir de nós mesmos, dependendo do ambiente em que estamos. Como ator é interessante perceber essas camadas e perguntar quem é que a personagem quer ser, quem é que está a tentar ser, o que está a esconder. Com o Edouard Louis, tudo isso são escolhas políticas, a forma de se vestir, mudar o que gosta ou não gosta… Como ator, não o posso ignorar.
Mas ao mesmo tempo, sem que se torne numa caricatura.
Exatamente. No início, era isso que procurava: como é que o faço? Se usar tudo o que acabei de dizer. O que é que estou a esconder [e que pertence ao ator] do Laurenz? De que tenho medo? E, para ser honesto, o que quis investigar continua presente: até onde vou? Quais são os meus medos? Quais são as minhas lutas com o meu corpo?
Porque é o seu corpo, a sua nudez, a sua voz, as suas reações. Precisamos passar por si para chegarmos à personagem.
Sim e, em algum momento, não sei se é verdade, mas tenho essa pequena esperança, talvez o público não termine como o Édouard, mas como outra pessoa, e nesse momento, reflita sobre si mesmo. Se o público entender que existem múltiplas camadas neste espetáculo, que as coisas são complicadas — e que essa é também a beleza da coisa — acho que já é uma grande conquista. Todos nós, enquanto equipa, queremos chegar aí: provocar a ideia de que as coisas são complicadas, que têm muitas camadas… mas que podemos aproveitar isso, como público e como pessoas.
“História da Violência” é apresentado dias 9 e 10 de Julho no Teatro Municipal de Almada, integrado no 41.º Festival de Teatro de Almada.