
Durasiana
04 Abril 2025
in Jornal de LetrasÉ um evento importante, o espetáculo Uma Barragem Contra o Pacífico, que a Companhia de Teatro de Almada apresenta em estrela absoluta em Portugal do romance seminal de Marguerite Duras (1914-1996), na justa adaptação teatral de Geneviève Serreau, excelente tradução de Lúcia Liba Mucznik e rigorosa encenação de Álvaro Correia. Na adaptação teatral do romance Uma Barragem Contra o Pacífico (1950), somos imersos num contexto árido e opressivo da Indochina francesa, onde a miséria e a frustração se entrelaçam com a vastidão indomável do mar. Recriação crua e impiedosa da autoficção biográfica de Marguerite Duras, a sua colocação em cena, pela primeira vez no nosso país, abre uma janela para um dos textos mais intensos e devastadores da literatura do século XX. De facto, Duras, que nasceu perto de Saigão, em 1914, só voltando a França em 1933, inscreve a sua biografia de adolescente, na história de uma família sem pai, cuja viúva e filhos vivem em condições precárias na Indochina, colónia francesa à beira do Pacífico, num retrato dilacerante do povo e dos colonos pobres, esquecidos pelo império colonial, que promete mais do que oferece e se aproveita da sua ingenuidade. Ao longo do espetáculo, assistimos às tentativas desesperadas da mãe que, reiteradamente, investe as economias penosamente amealhadas durante quinze anos, na construção de barragens para deter o oceano, isto é, para proteger das inundações constantes as terras supostamente aráveis que arrendou ao governo colonial. Ato louco e irrazoável, símbolo da batalha contra o sistema que a subjuga e destitui.
Em cena, a dramaturgia de Duras revela-se na sua crueza emocional, com diálogos intensos e não-lineares, por vezes monólogos imperativos, nomeadamente da mãe, permanentemente colérica e de temperamento violento. O seu discurso é obsessivamente marcado pela rememoração das humilhações e pela obstinada persistência num orgulho inútil. Nessa cegueira narcísica, manipula os filhos num desafeto imperial, criando neles um misto de amor e ódio tecido pela culpa e pelo desejo e impossibilidade de a abandonarem. Encurralados nessa ralva surda e em existências mesquinhas, sem formação ou ocupação, os filhos exprimem o seu grito abafado de forma igualmente violenta, mas sem, de facto, interagirem. E que estas personagens são destituídas de interioridade, incapazes de compaixão, calor humano, ou amor. Marcada pela ausência do pai e pela mãe abusiva, a realidade, tal como as águas do Pacífico, é fluida, imprevisível e os momentos de aparente tranquilidade, como quando se dança ao som da música do gramofone, são frequentemente permeados por ondas de frustração e raiva, expressa nos discursos implacáveis, cheios de silêncios subentendidos, como ausências abissais. O dispositivo é sempre o do poder: de subjugação ou vitimização.
A encenação explora a situação de opressão física e emocional, pela perfeita marcação dos movimentos dos atores, no espaço de uma justa cenografia, plena de sentido, onde um bungalow isolado e assente em estacas reflete a desolação das personagens, enquanto subverte as fronteiras entre o privado e o público, criando um espaço de vulnerabilidade onde a intimidade se mistura com as questões sociais e políticas. A pungente banda sonora sinaliza a força ameaçadora da água, a criar a tensão que se derrama por todo o espaço e a sublime iluminação aduz a aura cinematográfica e o exotismo tropical, a par do filtro romanesco da memória feita presente.
Teresa Gafeira é a mãe dominadora e abusiva, que a atriz interpreta com acuidade emocional, incansavelmente carregando o peso do desespero que é já uma resignação. Eficaz na contracena: paternalista com o capataz autóctone (Qiming Liu), perversa com a filha, condescendente com o filho, divertida com os pretendentes da filha que, na sua penúria, utiliza como moeda de troca, mas ríspida e intolerante quando o noivado não se concretiza. Muito perto da jovem adolescente de O Amante (1984), a filha, Suzanne, numa interpretação vigorosa e limpa de Iris Cañamero, é praticamente empurrada para a prostituição, instigada a “caçar” os colonos ricos que passam de carro na estrada ao largo do bungalow. A atriz constrói a personagem solitária e enigmática, com graça e desenvoltura, fazendo-a evoluir da menina insegura que espera e deseja, para a mulher com consciência do seu corpo e do efeito que exerce sobre os homens. Notável na forma como determinadamente marca a distância exata entre o seu corpo e o dos pretendentes. João Jesus é Joseph que, com precisão e sensibilidade, nos devolve uma personagem perdida no meio da derisão e que descarrega a sua frustração e violência na irmã, num misto subtilmente urdido de ciúme e de desprezo. Bruno Soares Nogueira, David Pereira Bastos, Erica Rodrigues e João Cabral completam com segurança o elenco deste espetáculo, que afirma a autonomia da literatura e do teatro na criação de memórias e preserva a aura de mistério da voz única e irrepetível de Marguerite Duras. J.
UMA BARRAGEM CONTRA O PACÍFICO DE MARGUERITE DURAS
Adaptação Geneviève Serreau
Tradução Lúcia Liba Mucznik
Encenação Álvaro Correia
Cenografia e Figurinos Sérgio Loureiro
Música Sofia Vitóris
Desenho de Luz Guilherme Frazão
com Bruno Soares Nogueira, David Pereira Bastos, Erica Rodrigues, Iris Cañamero, João Cabral, João Jesus, Qiming Liu, Teresa Gafeira
Produção da Companhia de Teatro de Almada / Teatro Municipal Joaquim Benite
Quarta e Domingo às 16h, de Quinta a Sábado às 21h. Até 6 de abril.