DIALOGUES DANS LE RÊVE

Sortilégio encantatório

 in Erreguete 13 Julho 2026 | notícia online

O universo fantástico desta dupla cruza-se com a poesia da filosofia Zen e faz florescer sobre o palco uma dimensão mitológica e antropológica, tangível, muito sensorial. Conseguem-no através de um trabalho corporal de movimento que parece herdeiro do Kabuki e de uma utilização de braços e mãos muito próxima das danças orientais. Vestem fatos pretos, máscaras brancas, chapéus, a caveira de uma cabeça de cavalo e outros elementos, movendo-se quase sempre em simultâneo, tal como uma ação desdobrada, duplicada e, assim, também amplificada.

No encantamento que esta dança ritual produz, entra também a música de caráter percussivo e pulsional com a ação pictórica — ora projetada e atravessada pela luz, na vertical, de uma espécie de ecrã, ora efetuada com pós e areias diretamente sobre o chão preto, junto das figuras que também emergem da luz.

Os dois atores efetuam uma dança-teatro em que as figuras resultantes estão a meio caminho entre a marioneta e a pessoa humana, numa automanipulação de movimentos articulados e objetualizantes.

Aliás, a performance, na frontalidade visual destas figuras — que remete para manifestações pictóricas e artísticas primigénias —, concita um caráter mágico e transcendental, assente no mistério.

Por outro lado, o início de Dialogues dans le rêve oferece-nos um vídeo em que podemos ver o que parece ser um enxame de insetos voadores e nadadores que constituem uma comunidade numerosíssima. São imensas nuvens desses diminutos animais a mexer asas e antenas no ar e na água de um lago. A sua fisionomia, nesses agrupamentos, transforma-se num vislumbre de fenómeno abstrato. De repente, aqueles diminutos seres ganham a forma de algo enorme e grandioso, e parece que se confabulam na geração de um outro mundo desconhecido e belíssimo.

O eco desses diminutos animais, tão pictóricos quanto os traços desenhados na ação com as partículas de pó e os grãos de areia (ou, quem sabe, de sementes), mantém-se ao longo da peça como um enigma natural ligado ao Planeta e desconhecido para nós.

Aliás, as areias, sementes ou pós, na ação pictórica, também originam, a partir do informe, formas e seres quase antropomórficos. Entidades que não saem da imaginação nem do intelecto, mas do próprio movimento a brincar com a matéria.

Em conjunto, Nadj e Fatjo oficiam um sortilégio cénico de beleza e mistério encantatórios, no qual se pode sentir uma raiz muito profunda que vincula o ser humano aos outros seres e entidades do planeta e do cosmos.

(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)

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