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Colóquio: António e Maria

No sábado, 12 de Março, decorreu no foyer do TMJB mais uma Conversa com o público, desta vez sobre o espectáculo António e Maria. O encenador Miguel Seabra, a actriz Maria Rueff, e o autor Rui Cardoso Martins foram os intervenientes nesta conversa moderada por Ângela Pardelha

Os convidados reflectiram sobre o processo de criação deste espectáculo, que segundo o encenador adveio ‘de um desafio, vontade e sonho de mergulhar nos textos de António Lobo Antunes’, não só da sua parte mas também de Maria Rueff, que em 2010 lhe falou deste projecto. António e Maria, estreou cinco anos depois, em Maio do ano passado, no Centro Cultural de Belém, e é uma peça que dá vida às personagens femininas que habitam as crónicas e os romances de Lobo Antunes. Nas palavras de Maria Rueff: ‘Apaixonei-me por este autor com apenas 14 anos, quando li Memória de um elefante. Apaixonei-me pela sua obra porque os ditos heróis são comuns: a dona-de-casa, a senhora do café, o senhor que vende cautelas… são pessoas que conhecemos. E na narração destas histórias comuns acaba por se cruzar a tragédia e a comédia, tal como na vida de todos nós’. Miguel Seabra acrescentou ainda como foi fundamental a colaboração com Rui Cardoso Martins, amigo de longa data de Lobo Antunes, que fez a dramaturgia e a adaptação da obra do escritor. O dramaturgo referiu que se baseou no ‘doméstico sublime’ em que assenta a obra de Lobo Antunes, no qual ‘coisas e acontecimentos ditos comuns tomam uma dimensão épica’, e como ‘escreveu com tesoura’, procurando ligações entre histórias e personagens que pudessem ser reconhecidas pelo público. Rui Cardoso Martins revelou ainda que pretendia com este espectáculo acabar com a ideia de misoginia que há acerca da obra de Lobo Antunes: ‘Ele é um escritor feminista, apesar da sua obra reflectir o bom e o mau em ambos os géneros; aborda muito o nível de violência que os homens exerciam sobre as mulheres… há homens que saem bastante desconfortáveis deste espectáculo’. Miguel Seabra considerou ainda a dificuldade em adaptar para teatro textos literários, e considerou mais especificamente essa dificuldade em relação a António e Maria, concluindo que foi um grande desafio, mas que ao mesmo tempo acabou por não ser um processo difícil: ‘Os textos ‘cozidos’ do Rui parecem textos de raíz, e os textos do António Lobo Antunes são muito Becktianos pela sua capacidade de síntese, pela pulsação rítmica de cada fala e porque retratam a intimidade da tragédia humana, a tal ponto que roça o cómico. Por outro lado, tive o privilégio de trabalhar com uma actriz maior: falamos a mesma linguagem, e é uma actriz que descodifica o texto, o papel e a cena. Assim cada espectáculo torna-se único, e o nosso estímulo é não saber se vai ser ou não ser o melhor espectáculo do Mundo’.

No sábado, dia 26 de Março, às 18h00, estaremos novamente à conversa, desta vez acerca do espectáculo Onde o frio se demora, de Ana Cristina Pereira, com encenação de Luísa Pinto.

Liliana Monteiro
in CTA, 14 mar 2016

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