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Caixeiro viajante em Almada

Leonor Nunes in Jornal de Letras, 11 Abr 2018

Tudo se passa na Grande Depressão, depois do crash de 1929 mas as “questões que se colocam não são só do passado, mas de hoje”. É o que diz ao JL Carlos Pimenta, que encena Morte de um Caixeiro-Viajante, de Arthur Miller, o novo espetáculo da Companhia de Teatro de Almada (CTA), com estreia a 13, no Teatro Municipal Joaquim Benite (TMJB). “Não quis sequer pôr a peça no período em que foi escrita. Em 1949, ou na crise em que é situada, que, de resto, muito afetou o próprio escritor”, adianta. “Porque tudo se podia passar atualmente. Tivemos uma depressão económica há bem pouco tempo e ainda estamos a sofrer as consequências”.

E, de tal forma a analogia é verosímil, que quando leu o texto e sempre que o vê representar, sente que “as personagens são pessoas que vivem agora e aqui, aquela situação”.

Morte de um Caixeiro-Viajante um clássico da dramaturgia norte americana, centra-se num homem que perde o emprego, incidindo sobre o “fim da chamada idade produtiva nas sociedades de consumo, capitalistas”, precisamente no momento em que um trabalhador se sente “ultrapassado” por já não produzir o mesmo pelos mais jovens ou com outra preparação. Esse é um problema dramático nos anos 30 como no presente e certamente no futuro, como sublinha ainda Pimenta.

Tanto mais que a condição de “rejeitado” ou “marginalizado pelo mercado de trabalho”, é decorrente não só das mudanças geracionais, mas dos modos de produção e das tecnologias, que alteram as condições e perspetivas laborais. E é essa a dimensão intemporal de Morte de um Caixeiro-Viajante, obra que afirmou Arthur Miller (1915-2005) como dramaturgo. “O protagonista, Willy Loman, é-nos apresentado do lado dos perdedores, daqueles que acabam por sofrer com as transformações. Ele sempre trabalhou na mesma empresa e chega a uma altura em que já não consegue dar resposta ao que é necessário em termos de produção, o que é para ele um problema antes de mais ao nível da auto-estima”, observa, por outro lado, o encenador. “E colocam-se ainda questões do ponto de vista familiar e social”. São essas questões que lhe interessam explorar no espetáculo e não a ideia de “sonho americano”, por vezes associada à peça. “Miller disse que tinha escrito sobre um caixeiro -viajante, a sua família, as condições económicas em que vivem, sobre um homem com necessidade de ser amado e o grande amor de um pai por um filho. Colocar tudo isto nesse contexto do “sonho americano” parece- me muito redutor”, explica. “O caixeiro-viajante é vítima das suas circunstâncias, das condições políticas, económicas e sociais da sua época. Como muitos foram vítimas das que tivemos nos últimos anos”. E acrescenta: “São essas condições que transformam as pessoas. Um homem que fica sem o seu trabalho, que é a sua fonte de rendimento, mas também a sua dignidade, como diz na peça um vendedor, sofre realmente em vários planos”.

A necessidade de valorização da “dignidade” do trabalho é igualmente atual: “Não precisamos apenas de ter um salário e pagar as contas, mas de projetos e de sentirmos que damos um contributo para transformar o mundo e que deixamos uma marca”, faz notar Pimenta. “É o próprio caixeiro que afirma que um homem não pode deixar o mundo como o encontrou, tem que acrescentar qualquer coisa. Porque um trabalho é também um agente de transformação”.

Por todas estas razões, a aposta foi numa atmosfera contemporânea, a começar pela cenografia, que partilha com João Pedro Fonseca, e pelos figurinos de José António Tenente. Morte de um Caixeiro-Viajante, que fica em cena até 6 de maio, no TMJB, tem interpretações de Ivo Alexandre, Beatriz Godinho, Diogo Branco, Diogo Freitas, João Farraia, João Tempera, Lígia Roque, Luís Gaspar, Pedro Walter, Sofia Marques, e Tiago Sarmento.

A Carlos Pimenta que já levou à cena textos de Marguerite Duras, Racine, Ibsen, Samuel Beckett, David Mamet ou Peter Handke, neste momento, interessa, de resto, trabalhar os autores realistas norte-americanos. “A seguir a Miller, gostaria, por exemplo de fazer Tennessee Williams, Eugene O’Neill ou Edward Albee. São dramaturgos cujas peças foram, muitas vezes, passadas ao cinema, nos anos dourados de Hollywood”, sendo parte de um “imaginário muito forte”. Uma “memória” a um tempo positiva e negativa, em seu entender, por implicar um maior conhecimento mas também uma comparação permanente com os filmes. “Foram projetados à escala global, por uma máquina fabulosa de divulgação, mas isso acabou por condicionar o que se fazia em cena”, sublinha. “Mas já nos começamos a afastar até em termos estéticos desse cinema e acho que já é possível pegar nesses autores teatralmente de outra forma, até num contexto mais poético, sendo textos realistas. Teatro sem poesia também não faz muito sentido”.

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