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Arthur Miller e a “Morte de um caixeiro viajante” no Teatro Joaquim Benite em Almada

Um homem que quer dar o mundo aos filhos, e o seu desabamento interior, perante a realidade do mundo, definem a ação de "Morte de um caixeiro viajante", que se estreia na sexta-feira, no Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada.

in RTP, 11 Abr 2018 

Nesta estreia do encenador Carlos Pimenta no universo do dramaturgo norte-americano Arthur Miller, o espetador fica perante um Willy Loman – o protagonista – completamente devastado pelo cinismo do mundo e pela realidade maior do que a que sonhou para si e para a família, sem sequer se perceber o peso dos anos de 1940, quando a peça foi escrita. Aqui, tudo é atual, a obra, a s suas personagens e a sua encenação.

“Aquilo a que assistimos com Willy Loman, pode passar-se com qualquer ser humano, ainda nos nossos dias”, disse à agência Lusa Carlos Pimenta, no final do ensaio de imprensa da peça.

“Morte de um caixeiro viajante”, exemplo do sonho americano de que Arthur Miller se descartou – peça com a qual venceu um Prémio Pulitzer – mostra um homem e a sua contingência económica e social, que, por causa do amor que tem pelo filho e pela família mais próxima, acaba por ser vítima de uma patologia, da sua megalomania, afirmou o encenador.

Uma megalomania que, segundo Carlos Pimenta, acaba por ser “comum” a muitos seres humanos, ainda nos dias de hoje, e que o conduz à destruição, quando vê os seus sonhos e o seu mundo de aspirações ruir.

“Para Willy, o que importava era ser amado”, refere o encenador, sublinhando que o centro da ação desta peça se centra na questão da “utilidade”.

O que faz desabar a estrutura interior de Willy – observou o encenador – é chegar à chamada meia-idade e perceber que nada do que fez acabou por seu útil.

E este problema não se confina aos anos 1940, nos Estados Unidos, disse Carlos Pimenta.

“Ainda há pouco tempo vivemos isto, com a crise. É quase impossível que o público que venha ver esta peça não sinta que o drama de Willy Loman é também o drama de muitas pessoas que conhece. Só que uns conseguem ultrapassar, outros não”, acrescentou, como quem explica por que motivo escolheu este clássico de Arthur Miller.

“Um homem vale mais morto do que vivo”, diz Willy Loman, na obra. Ironia que se materializa, uma vez que, com a sua morte, a família recebe o montante do seguro e acaba por conseguir a estabilidade económica que aquele não lhes garantira em vida.

“Apesar de Willy Loman ser um perdedor, é impossível tratar-se de alguém com quem não se crie empatia, porque ele tem um pouco de todos nós”, disse o encenador.

Num cenário despojado, onde pontuam seis cadeiras, uma mesa retangular, um sofá e uma pequena mesa de apoio, as imagens que compõem a cenografia limitam-se às projetadas, no fundo do palco e das laterais.

“Morte de um caixeiro viajante” é a terceira peça que Carlos Pimenta encena para a Companhia de Teatro de Almada (CTA), depois de “Variações à beira de um lago”, de David Mamet (2008), e de “Dois homens”, de José Maria Vieira Mendes (2009).

Interpretam esta nova criação da CTA, Beatriz Godinho, Diogo Branco, Diogo Freitas, Ivo Alexandre, João Farraia, João Tempera, Lígia Roque, Luís Gaspar, Pedro Walter, Sofia Marques e Tiago Sarmento.

A tradução é de Ana Raquel Fernandes e Rui Pina Coelho, a cenografia, de Carlos Pimenta e João Pedro Fonseca, que também assina o vídeo, o figurino de José António Tenente e, o desenho de luz, de Rui Monteiro.

Na sala principal do Teatro Municipal Joaquim Benite, a peça pode ser vista até 6 de Maio, com espetáculos de quinta a sábado, às 21h30, e às quartas-feiras e aos domingos, às 16h00.

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