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A raposinha matreira

O Romance da Raposa que a Companhia de Teatro de Almada tem em cena até domingo é um belo espectáculo, mesmo para além da sua vocação para a infância.

Augusto M. Seabra in Público, 14 Dez 2018 | notícia online

Entre os traços distintivos do trabalho da Companhia de Teatro de Almada figura aquele, ímpar, de ter uma intensa programação infantil, a cargo de Teresa Gafeira. Foram nada menos do que oito, oito!, os espectáculos apresentados este ano, sendo que aquele em estreia foi o último, agora em cena, e que em qualquer caso seria sempre um destaque, por adaptar um dos raros clássicos da literatura de autores portugueses para a infância, O Romance da Raposa de Aquilino Ribeiro.

Gafeira soube perfeitamente captar o essencial, a aprendizagem da raposinha, as suas matreirices e o universo fantasista – e são tudo motivos pelos quais não resisto a dar a este texto o título de uma obra que adoro, a ópera A Raposinha Matreira, de Janácek.

Para isso recorreu a duas colaborações importantes, as de Alexandre Delgado na música e de António Lagarto na cenografia e nos figurinos.

A música, executada ao piano, é simples mas envolvente, e é muito interessante que por vezes as personagens cheguem a envolver o pianista na acção. Os figurinos, como é usual em Lagarto, são luxuosos mas, enfim, a fantasia é fundamental; duas observações contudo: o figurino mais singelo, o da própria raposa, não deixa de ser o mais cativante, e o bicórnio (isto é, aqueles chapéus pontiagudos para a frente e para trás que aristocratas e militares de alta patente usavam em finais do século XVIII, princípios do XIX) do corvo é francamente excessivo.

Mas aí temos as aventuras da raposinha, mais o texugo, o lobo, o urso e o corvo, numa proposta cativante.

Um reparo contudo: a duração de apenas 45 minutos pareceu-me curta de mais. Dir-me-ão, e é certo, que a adaptadora e encenadora tem experiência suficiente para saber que é uma duração apropriada a um público infantil, mas também notei a atenção com que as crianças seguiam o espectáculo para supor que um pouco mais era possível, e quiçá desejável – ainda que também tenha em conta que assisti a uma sessão para famílias (as que se destinam a escolas são sempre mais turbulentas).

Para já está em cena no Teatro Municipal de Almada até domingo – haverá posterior reposição por certo.

Este Romance da Raposa é um belo espectáculo, mesmo para além da sua vocação para a infância.

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