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A Alegria de Pippo Delbono vai florir em Almada

O que vem depois da tristeza? A esperança, diz o italiano Pippo Delbono, ator e autor inclassificável, em A Alegria. Hoje às 22:00 no palco grande da Escola D. António da Costa, em Almada

Ana Sousa Dias in Diário de Notícias, 12 jul 2018 notícia online

Mais do que uma peça de teatro, La Gioia (nome original) é uma viagem de oitenta minutos de encantamento, com pessoas, palavras, silêncios, música, dança, sensações, sentimentos e milhares de flores num grand finale. É Pippo Delbono a embrulhar as dores íntimas e a abraçar as dores do mundo, em pleno Festival de Almada.

A estreia foi feita em março em Bolonha e o acolhimento do público foi, nas palavras de Pippo Delbono, “uma coisa extraordinária”. Isto é: terminado o espetáculo, sossegada a longuíssima ovação, o público não saía do lugar, continuava na sala como se não houvesse razão para voltar para casa, para enfrentar a rua e a neve que tinha caído ao longo do dia. Mas não era por medo dos graus negativos do exterior: o público queria continuar ali. Pippo, 59 anos, desceu à plateia e ficou a conversar com as pessoas que o abraçavam emocionadas.

Só depois o ator e encenador, uma espécie de bom gigante, se recolheu ao camarim e falou ao DN. Exausto, física e psicologicamente, mas ao mesmo tempo encantado por deparar com uma portuguesa: “Em Portugal sinto-me sempre bem com toda a gente, com as pessoas do teatro, com o público, com os críticos. Há uma humanidade, uma inteligência… não são como os espanhóis, que são cabeças duras”.

Hoje Pippo e a sua Compagnia estão em Portugal, acabados de chegar da Grécia onde apresentaram o mesmo espetáculo, e após uma digressão pela Índia. Avisaram, em março: “Não podemos dizer que alterações vamos ter até julho, porque a peça vai mudando ao longo do tempo”.

Evidentemente, os atores, a estrutura da peça, o fundamental do texto, as canções, o circo, as danças, tudo isso se mantém, as alterações não vão à essência do espetáculo. Esta peça revela um Pippo a sair da depressão que viveu nos anos anteriores, e em que a lenta morte da mãe foi omnipresente.

Mas Safi, o refugado afegão, vai montar e desfazer uma coleção de barquinhos de papel, uma esquadra frágil a atravessar o mar do palco, pacientemente, ao som de Clair de Lune, e Pippo vai dizer o poema de Erri de Luca: “Mar nosso que não estás nos céus, que abraças as fronteiras da ilha e do mundo, santificado seja o teu sal, santificada seja a tela do teu fundo, acolhe as embarcações sobrecarregadas sem nenhuma estrada traçada nas tuas ondas…”Bobò, o homem que Pippo retirou há anos de um asilo psiquiátrico, vai atrair os olhares de todos sempre que entra no palco, comovente e espantado. Grazia e Ilaria vão dançar celegantes e tranquilas. E Pippo vai estar no palco quase sempre, à espera do momento em que as flores vão finalmente florir.

O que é A Alegria, como chegou a esta alegria?
Vivi um momento de grande dor, de angústia, devido a situações que me aconteceram, sobretudo o fim da minha mãe. Mas depois a alegria começou a aparecer e a desenvolver-se. É isso o espetáculo. Falo sempre como se se tratasse de um amigo mas sou eu o amigo, evidentemente.

Como se faz de uma tristeza um espetáculo?
Para mim, é a única possibilidade. Preciso de reencontrar no teatro a força, a possibilidade da alegria.

É habitual em si, levar para a cena o seu próprio mundo de sensações e de sentimentos?
Faço isso há muito tempo. Mas creio que esta vez foi a mais profunda, sem nenhuma mediação e pode funcionar ou não. Estava de tal forma num buraco que disse que não queria fazer espetáculos, sentia-me demasiado mal, e no entanto fiz. Está ali a verdade. Entrego-me completamente, com toda a sinceridade, e isso sente-se, vê-se. Cada instante de alegria que ali viu eu estou realmente a senti-lo, não é artificial. Não estou a pensar se funciona ou não, assumo com coragem que estou mesmo num buraco negro. Deixo que a luz entre, que a luz permaneça, estou em cena do princípio ao fim. Destruí de alguma maneira a linguagem teatral, não é uma linguagem convencional. Fiz um espetáculo que fala de dor depois da crise, e isso fez a diferença. Estou totalmente lá dentro, há um momento em que começo a gritar. Mas estou a dizer a verdade. E o final é de esperança, é um final que te diz que vais sair disto.

Porque há sempre a primavera depois do inverno?
É isso.

As flores hão de florir sempre?
E temos de ficar contentes por isso acontecer, por isso voltar.

Como construir um espetáculo tão íntimo com outras pessoas, com músicas e textos de outras pessoas?
Como um pintor que faz desenhos onde segue a sua inspiração, que vai sentindo que isto está certo, aquilo não. Como um compositor que procura sons. O espetáculo é maior do que eu, muito maior do que eu. Ele chegou assim e começa a aprender, ele próprio. Obriga a rir e não é simples fazer rir, é preciso tempo. É um monstro que começa.

Os espetáculos são diferentes uns dos outros?
Há coisas que mudam muito, sobretudo agora porque estamos no início da criação. Ontem, por exemplo, numa das cenas com o [Zakria] Safi, o Bobò, que tinha sido o escolhido para fazer esse papel, disse-me que não queria fazer. E hoje mudei, ele tinha razão, sou eu que faço a cena com o Bobò.

Safi é um refugiado?
Sim, do Afeganistão. Ele não quer ser fotografado, há muitos problemas, mas ele era um refugiado que estava no Evangelho, tanto na peça como no filme. Ele veio do Afeganistão, atravessou a Turquia e conseguiu refúgio em Itália.

Talvez venha, sim, porque é a minha dor, é a dor do mundo. Não sei. Por enquanto ainda não me sinto completamente bem. Há 30 anos que pratico budismo e sei que a dor dos outros te ajuda a sair da tua dor. Digo a verdade em palco quando digo que a dor pode tornar-te egoísta, por vezes fazes ações que talvez não quisesses fazer, e fazes porque saber que elas te fazem bem a ti e a todos os outros. É compaixão, não é piedade, é uma coisa mais profunda do que a misericórdia. Desces até ao fundo e podes fazer algo pelo outro. Eu conheço esse fundo. Como o senhor que tem uma casa na praia, outra na montanha, um barco à vela mas num dado momento perde o significado.

Como surgiu a ideia das flores, tão espetacular?
Foi em Paris, vi flores na rua. E disse que era preciso arranjar flores, procurar flores por todo o lado. Estas flores representam muitas coisas.

Disse no palco que os alemães precisam de compreender, não de sentir. O que quer dizer com isso?
Disse isso hoje, é verdade, saiu-me. Saiu bem, não acha? A verdade é que às vezes é difícil compreender como as pessoas conseguem fazer coisas tão alucinantes. Senti hoje uma coisa estranha, o público ficou na sala, não se ia embora, foi por isso que desci para a plateia, nunca tinha feito isto. Foi uma coisa extraordinária.

A jornalista viajou a convite de Festival de Almada

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