Gaivotas, sonhos e absurdo no Festival de Almada
Ana Pais in coffeepaste 21 Julho 2026 | notícia online
Nada mais nada menos do que quatro “gaivotas” poisaram nos palcos desta 43ª edição do Festival de Almada, que anualmente reúne um público fiel para festejar o prazer de ver teatro: Ansioliticamente Falando, de Raquel Castro, La lettre, de Milo Rau, Só mais uma Gaivota, da Formiga Atómica e La Mouette, de Christian Benedetti. Uma das mais encenadas peças de Anton Tchekov, A Gaivota é um clássico da dramaturgia ocidental que, pela sua metateatralidade, seduz cada nova geração de artistas. A peça começa exactamente pela apresentação de um novo teatro, das “novas formas” teatrais de Treplev, o jovem escritor filho da famosa actriz Arkádina que, a par do escritor Trigorin, seu amante, representam as “velhas formas”.
Temperada com um complexo de Édipo a gosto, a peça presta-se a reflectir o debate artístico entre a tradição e a inovação (entre a velha guarda e a vanguarda) e a dar palco ao discurso sobre as artes em diferentes contextos e momentos históricos.

Foto: La Mouette, de Christian Benedetti
A programação do festival assinala ainda um outro aspecto pertinente para pensarmos o teatro no mundo de hoje: uma revoada de gaivotas tem vindo a cena desde a pandemia Covid 19. Parece que ficou para trás, que já ninguém fala disso, ponto final parágrafo. Mas estas gaivotas que têm vindo a surgir dizem-nos o contrário. São um sinal de que algo nesta peça de Tchekov fala dos tempos de hoje, além da reflexão sobre o fazer artístico que ela contém de forma mais explícita. A jovem aspirante a atriz e protagonista da peça de Treplev, embarca no sonho de se tornar actriz em Moscovo, alavancado pela sua paixão por Trigorin. Esse sonho, porém, é frustrado, tal como aquele amor. Por isso, a gaivota simboliza tanto a liberdade/ingenuidade de perseguir os sonhos quanto a sua perda e o seu luto. Que sonhos perseguimos ou perdemos durante o período da pandemia? Com que esperanças e frustrações tivemos de lidar interiormente? Estamos ainda a fazer o luto desses desejos ou, pelo contrário, os sonhos vingaram?
São estes fantasmas que o texto hoje nos traz de uma forma talvez menos explícita, mas mais complexa. Christian Benedetti trouxe-nos uma encenação “downgrade” de A Gaivota, na medida em que se aproxima da fala e do ambiente quotidiano, sem elementos decorativos nem artifícios. Esta opção acarreta vantagens e desvantagens: se a aproximação aos elementos da vida quotidiana pode suscitar maior reconhecimento por parte do público da pertinência actual dos temas da peça, o débito aceleradíssimo em intercalado com longas pausas (como uma espécie de imagem congelada) afastam-nos.

Foto: La lettre, de Milo Rau
Por seu turno, as outras três versões adoptam o prisma da autobiografia para reforçar os (seus) “fantasmas” que vêm reflectidos no texto. Em Ansioliticamente Falando, assistimos ao teatro-dentro-do-teatro para falar de ansiedade. Encena-se um processo criativo de A Gaivota para mostrar a aceleração da produtividade na criação contemporânea, que sufoca a criatividade e até o bem-estar mental e, por isso, coloca em causa a própria qualidade da criação. Não é por acaso que a ansiedade e a sanidade mental também foram dos aspectos mais salientes durante e após a pandemia.
Em La lettre, as biografias dos dois intérpretes – as suas relações pessoais e afectivas que têm com a Gaivota e a figura de Joana d’Arc – sustentam o guião dramatúrgico. O sonho está presente no desejo de encenação deste texto pelo actor Arne de Tremerie, desejo esse ligado à sua avó. Dado que a inspiração desta versão é o teatro popular, a complacência bem-humorada supera o grau de complexidade que a proposta poderia ter.

Foto: Ansioliticamente Falando, de Raquel Castro
Em Só mais uma Gaivota, projecto mais amplo do que este espectáculo, Miguel Fragata está em cena sozinho durante uma hora e meia para oferecer um olhar retrospectivo sobre a encenação do texto de Tchekov com que a sua turma concluiu o curso de teatro, em 2005. Ao olhar para os sonhos e angústias daquela época, Fragata fala-nos de forma divertida e algo delirante sobre os dias de hoje, em mudança vertiginosa sem tempo para carregar no pause (seria este tipo de pausa a que Benedetti aludia na sua Gaivota?) ou para pensar se é assim mesmo que queremos ser, se é este o mundo em que queremos viver.
Não é mesmo por acaso que este texto tem sido revisitado num momento pós-pandémico. A pandemia expôs uma variedade de circunstâncias e fatores estruturais, tanto de privilégio quanto de desigualdade, tornados especialmente angustiantes pelas políticas de extrema-direita em matéria de gestão da saúde pública, nomeadamente no Brasil e nos Estados Unidos. Talvez por isso, o festival também tenha trazido três espectáculos que abordam questões políticas relevantes para o momento que atravessamos, tais como o carisma de liderança, os mecanismos da censura ou a impunidade absurda do poder: Mussolini, de Tom Corradini, Burn, Burn, Burn, de Isabel Costa e Catarina Rôlo Salgueiro e Le Sommet, de Christopher Marthaler. Estas questões são fundamentais para tentar descortinar a complexidade da vida política actual porque cada vez mais, como no teatro, o artifício e a ilusão dos discursos populistas e dos directores de comunicação de campanhas cegam-nos com percepções intencionalmente construídas para produzir unicamente efeitos eleitorais.

Foto: Burn, Burn, Burn, de Isabel Costa e Catarina Rôlo Salgueiro
Vários autores sublinham que hoje não podemos pensar a popularidade dos líderes políticos através do carisma, mas o espectáculo Mussolini representa o ditador italiano à luz desta categoria, oferecendo um retrato historicamente informado e recorrendo à comédia para o ridicularizar. Mas hoje a paródia e a comicidade na política dão votos. Basta pensar em Giorgia Meloni é talvez a mais teatral das líderes europeias, usando muito bem a teatralidade cómica para viralizar nas redes sociais, além dos gestos apalhaçados no parlamento (https://italiaveranews.it/2024/03/22/meloni-la-foto-nascosta-nella-giacca-in-aula/). Assumindo-se herdeira de Mussolini, a sua persona pública já não segue a ideia de carisma do líder superior, mas sim uma ideia de proximidade artificial a que as selfies e os vídeos curtos e dirigidos ao espectador se destinam.
Assumindo uma maior comicidade e uma linguagem próxima do absurdo, Burn, Burn, Burn e Le Sommet fazem rir ma non troppo. Numa biblioteca, as encenadoras Isabel Costa e Catarina Rôlo Salgueiro apresentam um podcast sobre censura de livros em paralelo com um grupo de leitura que lê e discute Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. Rimos (e muito!) dos comentários no grupo de leitura e do salto imaginário para dentro do romance, mas o peso da realidade trazido pelo podcast não nos entrega à comédia. De um outro modo, o reconhecido mestre Marthaler aprisiona um grupo de figuras (poderosas?) num abrigo de montanha, com as armadilhadas e truques políticos transformados em gags cómicos, por quinze anos, já que todas as estradas foram cortadas e os sons de explosões pontuam a peça de forma levemente ameaçadora. A crítica está subentendida e o riso comedido.

Foto: Le Sommet, de Christopher Marthaler
Mas Le Sommet encerra também um sonho: não seria tão bom se as perversas forças autoritárias de extrema-direita pudessem ficar fechadas no alto de uma montanha e voltarem daqui a quinze anos, quando o muito trabalho cívico e colectivo necessário para alguma clareza ao que se está a passar no mundo tivesse já sido feito e, por isso, elas estariam despotenciadas dos afectos que mobilizam e das ilusões que criam? Burn, Burn, Burn termina com esperança numa mobilização para a luta contra estas forças, com um afirmar de resistência pelo conhecimento, pela memória e pelo amor. Quanto ao ridículo, é preciso repensá-lo no teatro já que hoje se tornou um perverso instrumento de estratégia política reles.