VARIEDADES

Censuras e cancelamentos

 in Erreguete 14 Julho 2026 | notícia online

VARIEDADES não é bem um espetáculo de variedades, pois não combina diferentes modalidades cénicas do tipo sketches, ventriloquismo, dança, ilusionismo, artes circenses, etc. Trata-se, porém, de uma espécie de musical informativo para prestar homenagem e celebrar o centenário do Teatro Variedades, no Parque Mayer, em Lisboa.

A dramaturgia e a encenação são simples e mantêm-se no básico: dez personagens-tipo, principalmente da classe operária e da classe baixa — uma varina, um marujo, um cauteleiro, uma funcionária de uma barraca de tiros, uma costureira, uma escritora, uma viúva rica e o dono de um restaurante. Todos eles espectadores do Variedades. Apresentam-se a nós, falando e cantando, e depois vão-nos contando as suas vivências no teatro através do tempo, desde a inauguração até à atualidade, altura em que já quase todos morreram e passaram a ser os fantasmas que habitam as teias deste teatro, que é mais do que um edifício icónico.

Dizem-nos que os artistas desaparecidos são fantasmas que habitam o subpalco e que os espectadores fiéis que ali encontraram aconchego e felicidade acabam por continuar, além da morte, juntos numa comunidade de fantasmas que habita as teias. Assim sendo, as personagens dos espectadores do Variedades transformam-se em narradores de si próprios e das “estórias” que configuram esta história.

Com apenas dez cadeiras, quatro mesas de madeira e o conjunto musical — formado por piano, contrabaixo, bateria, acordeão e viola de arco —, vão acompanhando as conversas, em que são nomeados artistas e alguns dos espetáculos que por ali passaram, com excertos de canções de referência: fados, fandango, pop-fado e até um número de zarzuela. Eis, por exemplo, “Zé Cacilheiro” ou “Cheira a Lisboa”.

Não há cenografia nenhuma, além das configurações coreográficas e da recolocação, em diferentes disposições, das dez cadeiras de madeira e veludo vermelho e das quatro mesas. O palco aparece nu. Só no final desce um cenário com a imagem da fachada original do Teatro Variedades, aquela de estética mais calorosa e próxima do popular, face à fachada branca e ao desenho muito mais frio e geométrico após as obras de reabilitação na sua reabertura em 2024. Este pormenor, além da homenagem, também constitui um certo exercício de saudade daquele edifício voltado para os divertimentos das classes mais populares. Uma melancolia subtil que condiz com as lembranças que algumas personagens trazem no que diz respeito ao desaparecimento das barracas de tiro e de outros locais, assim como de alguns ofícios e de lojas que havia em redor do Parque Mayer naquela altura.

Os nomes de artistas e de espetáculos surgem também acompanhados pelo relato popular das circunstâncias históricas: a Guerra, a Ditadura, o 25 de Abril, a entrada na União Europeia, até chegar ao dia 8 de julho de 2026, data da inauguração deste espaço exatamente um século atrás.

Variedades acaba por ser uma peça em que a informação histórica nos é oferecida num registo muito popular, através de lembranças e conversas, temperada com canções e danças muito representativas das diferentes etapas por que passou este teatro, desde os anos vinte do século passado até à atualidade. Sem dúvida, para os espectadores que conheceram um pouco a cidade e este espaço, o espetáculo tem momentos emocionantes. Para quem não o conheça, nem domine muitos dos referentes que compõem esta história — mais relatada do que representada —, será uma espécie de teatro didático que possibilita o conhecimento de uma pequena parte da identidade desta Lisboa, que hoje é uma cidade multicultural sob a pressão despersonalizante do turismo de massas, da gentrificação e das influências homogeneizadoras globais.

(Os meus agradecimentos para Maria José Albarran Alves de Carvalho pela revisão linguística deste artigo.)

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