
Karla da Silva apresenta em Portugal o samba de roda que move o corpo e a alma
A cantora e compositora carioca fará dois espetáculos no Festival de Almada, em 11 de julho, e um show na Casa do Capital, no dia 12. “Será uma experiência intensa e espiritual”, afirma.
in Público 06 Julho 2026 | notícia online
A cantora e compositora carioca Karla da Silva foi beber da fonte do samba de roda no Recôncavo Baiano para desenvolver seu novo trabalho, o álbum Batuk. O projeto, que ela define como um mergulho profundo no poder ancestral das vozes e dos tambores afro-brasileiros, será apresentado em Portugal nos dias 11 de julho, no Festival de Almada — às 20h30 e às 24h —, e 12, na Casa do Capitão, às 16h30, depois de estrear em Paris em janeiro último e percorrer várias cidades da França.
“É um sonho fazer esse show em Portugal, porque, pelo que eu entendi, será a primeira vez de um espetáculo no país com samba de roda, com a viola de dez cordas, com percussão e as vestimentas inspiradas nos terreiros do candomblé”, diz. Ao contrário do trabalho anterior, Sotak, em que os shows se sucederam ao lançamento do disco, desta vez Karla está subindo primeiramente aos palcos entoando o samba de roda, o samba chula, o samba de terreiro e os cantos de caboclo, para só depois entrar em estúdio.
Karla, que, depois de Portugal, seguirá com Batuk para a Suíça, ressalta que o novo trabalho celebra as tradições fundamentais e pioneiras que moldaram o samba como se conhece hoje. “O espetáculo constrói uma ponte entre o Brasil e as tradições da diáspora africana, num ritmo vivo que move tanto o corpo quanto a alma”, frisa. A artista promete levar o público a uma “experiência intensa e espiritual, com as tradições e canções dos negros escravizados do século XVI num círculo de vozes, tambores e danças”.
A artista ressalta que Batuk vem da palavra brasileira batuque, “que pode se referir tanto a um tipo de música ou dança com tambores, ligada à cultura africana, quanto simplesmente ao som de batidas rítmicas”. “Em Batuk, falo do samba pé no chão, da palma da mão, do samba pós-ritos do candomblé. Esse samba é mais rural, ligado ao povo preto, aos escravizados, que se uniam depois das festividades ritualísticas para festejar. Era aquela coisa batida na palma da mão, aqueles cantos com pergunta e respostas”, detalha.
Samba popular e plural
Para Karla, todo esse ritual tem a ver com a sua história: ela é Yalorixá, sacerdotisa de alta hierarquia no Candomblé dos Orixás. “Sou Yalorixá, filha de Oxum, e, neste projeto, deixo que o tambor me guie. Em Batuk, o som nasce do chão, das mãos, dos corpos, da terra molhada depois da chuva. É um samba enraizado, popular e rural, um samba que é, ao mesmo tempo, celebração e reza, tradição e futuro”, frisa.
A cantora e compositora, definida pelo jornalista francês Jacques Denis, do Libération, como “como uma das vozes mais autênticas da nova cena musical brasileira”, explica que, com o álbum Sotak, lançado no ano passado, ela se aproximou do samba como uma língua viva.
“Explorei seus múltiplos sotaques: samba canção, samba-reggae, partido-alto, samba de quadra, assim como suas raízes atlânticas, entre o semba angolano e a morna cabo-verdiana. Tratei o samba como uma metáfora da língua portuguesa, que se desdobra e se reinventa em cada território”, diz
Com Batuk, acrescenta, ela retorna à fonte, mergulhando na origem. “É um retorno às bases do samba: samba de roda, samba chula, samba de terreiro e samba de saboclo. Falo do samba antes do samba, aquele que existia antes do rádio, do palco e do mercado. Falo do samba como ritual, como corpo, como terra”, sublinha. “O samba de roda é o coração pulsante de tudo. Nascido no Recôncavo Baiano, é ao mesmo tempo dança, canto e comunidade. É um samba circular, em que músicos, cantores, dançarinos e todos ao redor se tornam um só”, emenda.
A carioca de Madureira, subúrbio do Rio de Janeiro, berço das escolas de samba, escolheu amigos músicos de longa data para subir ao palco com ela em Batuk. “Emily Pereira, do Coletivo Gira, vai cantar e tocar comigo. A banda será composta por Bruninho Percussão, do Viva Samba, Eric Passos, percussionista baiano, e Gabriel Marques, que toca viola tradicional de 10 cordas, que vem da França especialmente para esse show, que terá participação especial do mestre Presuntinho, do Patú Sambá, do Bloco Pirâmide e do Bloco Secretinho”, lista.
O roteiro de Batuk descreve o samba chula como um diálogo entre solista e coro; o samba corrido, vivo e acelerado; o samba de viola, marcado por instrumentos de corda ancestrais; e o samba ligeiro, festivo e leve, anunciando o samba urbano. “O samba de terreiro nasce da mesma energia, mas dentro das casas de culto, os terreiros de candomblé, onde a música se torna oferenda e o ritmo vira oração. O samba de caboclo conecta o africano e o ameríndio, o tambor e a floresta, o corpo e o espírito. É o canto que chama o encantado, o toque que invoca o ancestral.”