“O Beijo no Asfalto”, de Nelson Rodrigues. Um murro no estômago em cena no Teatro Nacional São João

Nesta tragédia carioca, um gesto simples de compaixão desencadeia uma devastadora espiral de julgamento e violência social. A repórter fotográfica da VISÃO Lucília Monteiro assistiu à ante-estreia e pode ver aqui algumas imagens

Lucília Monteiro in Visão 18 Junho 2026 | notícia online

Considerado o pai do teatro moderno brasileiro, Nelson Rodrigues (1912–1980) foi dramaturgo, cronista e jornalista, responsável por revolucionar a cena teatral ao expor, sem concessões, as contradições, os desejos ocultos e a hipocrisia da sociedade. As suas obras mergulham nas zonas mais complexas da condição humana, revelando preconceitos, moralismos e conflitos familiares que continuam profundamente atuais.

Escrita em 1960, “O Beijo no Asfalto” é uma das suas peças mais emblemáticas. Nesta tragédia carioca, um gesto simples de compaixão desencadeia uma devastadora espiral de julgamento e violência social. Arandir, um homem recém-casado, socorre uma vítima de atropelamento que, antes de morrer, lhe pede um beijo. O ato, movido pela humanidade e pela empatia, é rapidamente transformado pela imprensa sensacionalista numa história escandalosa de desejo proibido e crime.

Para encerrar a temporada janeiro–julho de 2026, o Teatro Nacional São João apresenta esta poderosa obra numa nova leitura assinada pelo encenador Tónan Quito. Reconhecido pela vitalidade e sensibilidade do seu olhar artístico, Tónan Quito propõe uma encenação contemporânea que valoriza a diversidade das variantes da língua portuguesa, assumindo o português do Brasil como matéria viva da cena. Com um elenco integralmente brasileiro, selecionado através de audições públicas em Portugal, esta produção reforça a autenticidade da linguagem e do universo rodrigueano.

“O Beijo no Asfalto “ não é apenas a história de um beijo. É um espelho da sociedade e das suas fragilidades, um convite à reflexão sobre a compaixão, a verdade e os mecanismos de exclusão que persistem no nosso tempo. Uma obra intensa e perturbadora que continua a desafiar o público a questionar até que ponto somos guiados pela empatia ou pelo preconceito.

Em cena de 18 de junho a 5 de julho de 2026, no Teatro São João, esta produção encerra a temporada do TNSJ antes de seguir em digressão para o Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada. Com duração aproximada de 1h30, legendagem em inglês e classificação etária para maiores de 14 anos, o espetáculo promete ser um dos momentos marcantes da programação teatral deste ano.

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