Quatro espetáculos franceses no 43º Festival de Almada

O Festival de Almada regressa às datas habituais e decorre de 4 a 18 de julho, em Almada e Lisboa. A programação inclui 12 criações internacionais, das quais quatro são espetáculos franceses, apresentados com o apoio do Institut français du Portugal, através do programa MaisFRANÇA.

in Institut français du Portugal 18 Junho 2026 | notícia online

DIALOGUES DANS LE RÊVE de Josef Nadj e Ivan Fatjo

08.07.2026 – 22h – Escola D. António da Costa, Almada

Eis o maravilhoso regresso desta dupla, criada em 2007: Ivan Fatjo (Costa Rica, 1980), um bailarino virtuoso, e Josef Nadj (Hungria, 1957), um dos mais inovadores coreógrafos da dança contemporânea. Nadj é presença regular desde há vários anos em Almada, onde em 2021 também dirigiu a formação O sentido dos Mestres. Nas suas criações, este “filósofo do movimento” (que estudou Belas-Artes, mímica e artes marciais) costuma partir da obra de outros autores — poetas, escritores, pintores e músicos —, oscilando entre a realidade e o sonho, a tradição e a modernidade. O seu trabalho resulta invariavelmente em obras altamente plásticas e de grande alcance poético. Existe uma cumplicidade profunda entre estes dois artistas. Ao som das famosas melodias para piano de John Cage, Dialogues dans le rêve tem no título uma referência ao famoso texto de Muso, um dos grandes autores da tradição zen japonesa. Outra inspiração matriz para esta criação foi a obra do poeta húngaro Dezső Tandori, conhecido pela sua capacidade de brincar com as palavras, a fragmentação e o não-dito — uma forma de comunicação situada entre o consciente e o inconsciente, entre o real e o imaginário. Com máscaras brancas e chapéus pretos, Nadj e Fatjo interessam-se pela ideia de um corpo que parece simultaneamente inanimado e animado, material e imaterial, que oscila entre a vida e a mecânica, entre o orgânico e o artificial. Ao libertar-se do rosto humano, a máscara abre um campo de possibilidades na expressão e na transformação do indivíduo, questionando dessa forma a própria natureza da identidade e da representação.

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LA LETTRE de Milo Rau

12.07.2026 – Escola D. António da Costa, Almada

Milo Rau (Suíça, 1977) — encenador, dramaturgo, ensaísta, cineasta, jornalista, e actual director do Festival de Viena — volta a Almada. La lettre estreou em julho do ano passado no Festival d’Avignon como espectáculo itinerante, apresentando-se num sítio diferente em cada dia. Esta criação modesta, nas palavras do encenador, inspira-se na tradição do teatro popular, com o objectivo de montar espectáculos que possam adaptar-se a vários tipos de espaços, inclusive ao ar livre. Milo Rau deixou-se invadir pelas suas memórias primevas de idas ao teatro, quando a família o levava a assistir a peças representadas nas ruas de uma aldeia. Assim, a ideia que esteve na origem de La lettre foi a de criar uma peça acessível e inclusiva para todos; um texto descontraído e cheio de humor, que acaba por constituir-se como um verdadeiro manifesto sobre aquilo que o teatro popular pode ser nos dias de hoje. Este espectáculo conta-nos a história de uma dupla obsessão: a do actor chamado Arne, que quer encenar A gaivota, de Tchecov, porque a sua avó — uma radialista flamenga famosa — era uma verdadeira fã dessa peça; e a de Olga, cuja avó camaronesa sofria de esquizofrenia e ouvia vozes. Esta jovem actriz acabou por crescer fascinada pela figura de Joana d’Arc (que, tal como a sua avó, também ouvia vozes). La lettre cria várias sinapses dramatúrgicas entre estas duas histórias, que encerram coincidências incríveis. E, tal como é frequente no trabalho de Milo Rau, a narrativa literária e histórica acaba por entrelaçar-se intimamente com as motivações pessoais dos dois actores.

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ISRAEL & MOHAMED de Mohamed El Khatib & Israel Galván

14.07.2026 – 22h – Escola D. António da Costa, Almada

Israel e Mohamed: eis um título que é, por si só, um manifesto, “uma promessa que parece impossível”, um leque de possibilidades e de ambivalências religiosas e geopolíticas. Mas para Israel Galván (Espanha, 1973) e Mohamed El Khatib (França, 1980) estes são apenas os seus dois nomes próprios, uma junção que é fruto do acaso. Quem os escolheu foram os seus pais, duas presenças fortes neste espectáculo, que os olham com perplexidade. O pai de Mohamed sempre quis que ele tivesse uma “profissão a sério”, e o de Israel que ele dançasse como ele (foi um bailarino de flamenco famoso). Pegando nas raízes históricas e culturais destes dois criadores — andaluzas e árabes — este espectáculo surgiu do encontro e da partilha dos seus universos pessoais, íntimos e familiares: Mohamed dedica a sua vida ao teatro, ao cinema e à criação de instalações de inspiração documental; Israel é um premiadíssimo bailarino de flamenco — mas é também um iconoclasta. Ambos tiveram de aprender a lidar com os seus pais; de enfrentar as tradições das suas famílias, que eram semelhantes; e de encetar uma busca de si mesmos. Nesta peça, os dois artistas constroem uma língua comum baseada no corpo, nas suas feridas e cicatrizes. Israel e Mohamed é a revisitação da educação que tiveram, dos seus arquivos familiares, e da forma como um dia decidiram dedicar as suas vidas à criação.

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LA MOUETTE de Anton Tchecov – Encenação Christian Benedetti

18.07.2026 – 22h – Escola D. António da Costa, Almada

O mestre dramaturgo (e médico) Anton Tchecov (Rússia, 1860-1904) escreveu, em 1895, Чайка (que pode ser escrito e lido como Tchaika). Esta palavra significa ‘gaivota’ mas também pode querer dizer ‘sonhos desfeitos’. Quatro papéis femininos e cinco masculinos, uma vista para um lago, muita conversa sobre literatura e arte, pouca acção e cinco toneladas de amor”. Para Christian Benedetti (França, 1958) — actor, encenador, e director do Théâtre Studio, em Alfortville, desde 1997 — esta obra consiste num “regresso a casa”, e é por isso que volta constantemente a ela. Redescobriremos neste espectáculo a obra-prima de Tchecov com uma urgência de modernidade radical: um palco despido (sem cenário, apenas com alguns movéis e adereços necessários para o sentido), o mesmo acontecendo com os figurinos: apenas alguns elementos.

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