2026 em Almada: da estreia de Tom Murphy à redescoberta de Shakespeare

Às produções da Companhia de Teatro de Almada, juntam-se dezenas de espectáculos de teatro, dança e música. Teatro Delusio e Christoph Marthaler são alguns dos regressos anunciados para o festival

in Público 10 Janeiro 2026 | notícia online

Desde 2005 que a Companhia de Teatro de Almada (CTA) tem como casa o Teatro Municipal Joaquim Benite — assim denominado desde 2013, após a morte do fundador da companhia, Joaquim Benite (1943-2012). O edifício da autoria de Manuel Graça Dias e Egas José Vieira acolhe as produções próprias da CTA e o Festival de Almada, organizado pela mesma estrutura, com o contrato de gestão de 20 anos recentemente renovado por mais duas décadas. “O teatro foi construído para ser a casa da Companhia de Teatro de Almada, para albergar uma estrutura de criação, com muitas valências que outros teatros não têm: um atelier de construção de cenografia, um espaço de ATL, uma generosa sala de ensaios, etc.”, lembra Rodrigo Francisco, sucessor de Benite na direcção da CTA.

Daí que o eixo central da programação de cada temporada radique de forma inevitável, nas criações da própria CTA. Em 2026, serão três os espectáculos de maior fôlego (além de produções para a infância), conforme a programação anunciada este sábado: Um Adeus Mais-que-Perfeito, texto de Peter Handke com encenação de Teresa Gafeira; Um Assobio no Escuro, de Tom Murphy, dirigido por Rodrigo Francisco; e Medida por Medida, de Shakespeare, com montagem de Ignacio García.

Um Adeus Mais-que-Perfeito, em rigor, estreou-se no último Festival de Almada, mas só agora (de 16 de Janeiro a 1 de Fevereiro) terá a sua temporada no Teatro Joaquim Benite. Teresa Gafeira apaixonou-se pelo romance de Handke e quis levá-lo à cena, mergulhando num texto em que o autor austríaco, descreve Rodrigo Francisco, “fala da história da sua mãe, que se suicidou aos 51 anos, uma senhora nascida num contexto rural, pobre, no início dos anos 20, com traços comuns a uma geração de mulheres portuguesas nascidas na província que estavam impedidas de estudar e que não tinham outro remédio senão fugir a essa vida procurando singrar na cidade, como criadas de servir ou como operárias”.

A história da mãe de Handke, aqui interpretada por Duarte Guimarães e Pedro Walter como espelhos do escritor, escarafuncha nas razões para o seu suicídio enquanto traça “a subalternidade em que viveram as mulheres austríacas no pós-Segunda Guerra Mundial”. Conta a vida que lhe foi possível viver e aquela a que não pôde sobreviver.

Depois, de 10 de Abril a 10 de Maio, a CTA estreará em Portugal o texto de Tom Murphy Um Assobio no Escuro, no qual Harold Pinter se terá inspirado, em parte, para escrever Regresso a Casa. A obra inicial de Murphy foi escrita em 1961 e incide sobre uma família irlandesa emigrada para Inglaterra, depois de o irmão mais velho (que receberá os outros e os pais) se ter casado com uma mulher inglesa. Desde que Rodrigo Francisco pensou em encenar a peça, há seis anos, “tem acontecido em Portugal o que acontece em muitos países da Europa, o tema da imigração tem sido cavalgado pela extrema-direita para tirar daí dividendos”, explica ao PÚBLICO.

“É uma tragédia moderna, um texto de juventude de Tom Murphy, e sente-se que ele conheceu bem esta história, estas pessoas que transforma em personagens. Fazer este texto permite-nos olhar para o tema dos migrantes a partir de dentro, dos problemas que eles têm, e lembra-nos que Portugal também é um país de emigrantes.”

No final do ano, de 30 de Outubro a 29 de Novembro, a companhia dará palco a Medida por Medida, peça do reportório de Shakespeare que, nas palavras do encenador espanhol Ignacio García incluídas no programa de apresentação da temporada, incide sobre “a bondade ou a perversão do poder, a usurpação da identidade, a justiça ou a injustiça exercidas pelos governos, o amor e a luxúria que se emaranham e se enredam até se confundirem, a lealdade e a traição como a cara e a coroa da própria condição humana”.

“É importante fazer um texto clássico, com todo o esforço de produção e financeiro que isso significa para uma companhia independente”, diz Rodrigo Francisco sobre o desafio lançado a García — cujo historial de colaboração com a CTA inclui a adaptação do romance de José Saramago História do Cerco de Lisboa, em 2017, e dois clássicos do Siglo de Oro espanhol (Reinar Depois de Morrer, em 2019, e Nem Come nem Deixa Comer, em 2021).

Do Festival de Almada, um dos obrigatórios destaques da temporada no Teatro Joaquim Benite, são já anunciados o regresso de Teatro Delusio, da companhia alemã Familie Flöz, olhar insólito sobre os bastidores de um teatro eleito pelo público da última edição como Espectáculo de Honra (9 e 10 de Julho), e a encenação de Miguel Loureiro para o Teatro Nacional São João de O Beijo no Asfalto, texto que o brasileiro Nelson Rodrigues escreveu originalmente para o Teatro dos Sete a pedido da actriz Fernanda Montenegro (13 e 14 de Julho).

Em parceria com o Teatro Nacional D. Maria II, a sala receberá também durante o festival O Cume, peça em Christoph Marthaler, presença regular no festival, aplica o seu teatro musical a seis personagens enfiadas numa estância de Inverno (17 e 18 de Julho).

Muito mais teatro, dança e música

A relação de proximidade e de fidelidade criada entre a CTA e o público radica, acredita Rodrigo Francisco, nesta prática de apresentar no início de cada ano a programação até Dezembro, bem como num Clube de Amigos com “perto de 700 membros que sabem que todos os fins-de-semana têm espectáculos aos quais assistir”. A programação de teatro para 2026 completa-se, assim, com as passagens pelo Teatro Joaquim Benite das seguintes companhias e artistas: Teatro da Terra (Quando Nós os Mortos, Despertarmos, de Ibsen, encenado por António Simão, de 13 a 15 de Fevereiro), Companhia de Teatro do Algarve (Oleanna, de David Mamet, encenado por Sara Vicente, de 20 a 22 de Fevereiro), Teatro do Bolhão (Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, encenado por Maria João Vicente, 13 de Março), Joaquim Horta (John Gabriel Borkman, de Ibsen, 27 de Março), Álvaro Correia (Todos Pássaros, de Wajdi Mouawad, 18 de Abril), Cláudio da Silva (Ájax, de 17 a 20 de Setembro), Artistas Unidos (Os Jugoslavos, de Juan Mayorga, encenado por Pedro Carraca, de 6 a 8 de Novembro), Flávia Gusmão (Uma Performance, Meu Deus, de Jacinto Lucas Pires, de 4 a 6 de Dezembro) e Tobias Wegner (Leo Show, 12 de Dezembro).

A habitual aposta na dança incluirá a apresentação de O Salvado, regresso de Olga Roriz aos solos que foi um dos espectáculos de 2025 para o Ípsilon (7 de Fevereiro), um programa da Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo com coreografias de Vasco Wellenkamp, Ricardo Campos e Maria Mira (21 de Março), duas peças integradas na Transborda — Mostra Internacional de Artes Performativas de Almada (Parterre, de Volmir Cordeiro, 2 de Maio, e Maneras de Salir, de Varinia Canto Vila, 9 de Maio), e a criação de Amador Alina Folini intitulada Olhos Periféricos Fazem Sismos, Línguas Enroladas Chamam Um Vulcão: Estudos para Um Corpo Fabulado (10 e 11 de Outubro).

A programação integra ainda um farto cardápio de propostas para a infância, alternando a cada fim-de-semana oficinais criativas com espectáculos como O Vento nos Salgueiros, Fazer Uma Canção, Bonecos, O Duelo e Outras Histórias, Cabe Mais Um? ou Uma Nova Volta ao Mundo; e concertos de Fogo Fogo, Mazgani, Helder Moutinho, Orquestra Paris Consuelo, DSCH-Schostakovich Ensembe, Mnozil Brass, Márcia, Ana Bacalhau e Jovem Orquestra Portuguesa, assim como um ciclo de música de câmara que se estende por toda a temporada.

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