
O mundo está perdido mas não vamos baixar os braços – não agora, pedem os Baro d’evel
Ao desespero e à desistência perante o estado das coisas, a companhia franco-catalã contrapõe a poesia do levantamento e do colectivo. Qui Som? é uma das luzes que iluminam este Festival de Almada
in Público 03 Julho 2025 | notícia online
Camille Decourtye e Blaï Mateu Trias têm as mãos no ar, mas não — mas nunca — em sinal de rendição. Sobretudo não agora, que a catástrofe está aqui. “Já não estamos a falar de um desastre iminente, que avistamos ao longe. Estamos lá enfiados. Portanto é preciso encontrar maneiras de viver, de imaginar um futuro. Temos de pôr nisso todas as nossas energias”, diz-nos um dos dois pais fundadores (e construtores, e dínamos, e guias espirituais) da família Baro d’evel, que hoje ilumina a abertura do 42.º Festival de Almada com uma luz que brilha furiosamente no fundo do tal buraco apocalíptico onde subitamente (ou não) nos vimos metidos.
A conversa decorre dois dias depois da febril estreia de Qui Som? no Festival de Avignon e um dia antes da febril segunda volta das eleições francesas que há um ano quase deram (sublinhado no quase) a maioria dos lugares do parlamento à União Nacional de Marine Le Pen e Jordan Bardella. “Temos a impressão de que o pesadelo nos vai cair em cima, mas estamos sem grande vontade de o encarar e damos tudo o que temos no trabalho”, continua a voz do outro lado do telefone.
Blaï, que é catalão — embora resida na pequena aldeia de Saint-Michel-de-Vax (70 habitantes) onde a companhia está a reerguer com as suas próprias mãos, entre animais e árvores de fruto, a herdade oitocentista de La Baronne —, não votou. Camille sim, antecipadamente. Noite após noite, à medida que as apresentações do espectáculo que agora chega ao Centro Cultural de Belém, em Lisboa (sexta-feira, às 20h; sábado, às 19h), iam acompanhando a contagem decrescente para o dia D, ambos viram, do palco, lágrimas nas primeiras filas da plateia, mas não leram nelas (pelo menos não apenas) desespero ou desconsolo. “As pessoas choravam e ao mesmo tempo estavam contentes. Deu-me imenso prazer voltar a ver-me num lugar onde convocamos algo que é maior do que nós e onde nos recompomos, onde vamos buscar energias para continuar. Então sim: acho que aconteceu aquilo que procurávamos.”
Seria pensamento mágico atribuir a Qui Som?, primeiro capítulo de uma nova trilogia da companhia franco-catalã, a derrota da União Nacional nas legislativas de há um ano. De resto, se aquele pesadelo em particular acabou por não lhes cair em cima (ainda), os Baro d’evel continuam — continuamos — atolados na lama em que os intérpretes escorregam, patinam e caem, conspurcando a beleza e degradando a poesia inicialmente prometidas. Da marcha aparentemente inexorável da direita, com as suas micro e macroagressões e xenofobias, ao tsunami de mortes no Mediterrâneo, ao apocalipse climático em curso, a matança em directo a partir de Gaza, a catástrofe é o novo normal e face a ela a pergunta inscrita no título catalão, “quem somos?”, é tudo menos retórica. E ecoa nessa outra que encontramos na folha de sala do espectáculo: “O que significa fazer a nossa parte?”
“O mundo está a arder, há incêndios para apagar por todo o lado e, como loucos, estamos ocupados a criar? Mas que mais poderíamos tentar se não explorar o gesto poético, iniciar o encontro rumo à criação de uma obra? Criar é tentar apagar fogos, é a procura da unidade, é a teimosia em relação ao impossível, esta ânsia de despertar o melhor que há em nós”, justifica Camille na nota de intenções, como que antecipando que o que se segue é frágil, ingénuo e desajeitado, como a beleza. Mas há outra via?
Algures numa quinta no Sul de França, uma companhia de artistas inflamados de fé no colectivo, formados na ética plurissecular da vida nómada e na prática das artes circenses (os pais de Blaï eram palhaços, os de Camille juntaram-se a famílias ciganas, ambos cresceram em roulottes pela estrada fora até se cruzarem, adolescentes, no Centro Nacional das Artes do Circo de Châlons-en-Champagne), escolheu atirar o corpo para a luta — com uma roda de oleiro, um megafone e um cão. Sigamos então esta singular fanfarra, enquanto ela desbrava o caminho através do aterro monumental em que o mundo se transformou.
A vida em comum
Como a humanidade (se acreditarmos na Bíblia), Qui Som? começa em barro — e acaba em plástico. É também essa viagem insana, entre um velho modo de fazer manual, orgânico, e o actual inferno do desperdício tardo-industrial, que se empreende nesta cerimónia colectiva. A magia que se produz em palco nos espectáculos dos Baro d’evel — mesmo que aqui não haja cavalos e pombos a fazer-nos abrir a boca de espanto, como em Falaise, apresentado em 2022 no Porto e em Lisboa, e cujo tema era já o colapso — não existe, aliás, sem objectos, sem corpos, sem animais. Mas não existe acima sobretudo sem o encontro e sem uma ideia, verdadeiramente posta em prática, de vida em comum, justamente os bens que Camille e Blaï constatam estar agora em acelerada extinção no mundo ocidental.
“Não há verdadeiramente um segredo, há antes do mais muito trabalho. Para este projecto, passámos muito tempo a encontrar a equipa, porque vários dos intérpretes vieram juntar-se à companhia; de modo a familiarizá-los com o nosso universo, fizemos laboratórios e experiências, também com artistas convidados, durante várias semanas, antes de constituir o grupo. Que é feito não só para servir o trabalho em palco, mas também para momentos de vida em conjunto”, conta Blaï.
Na língua dos Baro d’evel, essas experiências incluem vindimas nos terrenos de La Baronne, caminhadas pela montanha, encontros com manadas de cavalos, celebrações em torno de fornos de cerâmica e excursões ao Líbano (com a organização catalã Payasos sin Fronteras, de que são próximos) ou ao Benim. “O espectáculo constrói-se a partir de todas essas experiências, com o contributo não só dos intérpretes como de uma grande equipa artística: toda a gente põe a mão na massa. Mas também trabalhamos muito com a improvisação em torno do movimento e do ritmo. E deixamo-nos guiar pelo invisível e pela intuição. Há coisas que nem nós sabemos como acontecem.”
Apanhar os cacos
A federar o grupo tanto fora como dentro do espectáculo, na vida de bastidores como na vida de palco, há uma dupla patética de anfitriões, Camille e Blaï, naturalmente — Rita, a filha de dez anos dos dois, também aparecerá, “porque as crianças têm uma palavra a dizer sobre o mundo, não podemos expulsá-las destes questionamentos”.
Cabe-lhes levantar a moral quando parece que “somos poucos” e então é que não dá mesmo para “baixar os braços” (não confundir com mãos no ar em sinal de rendição), en garde perante o que aí virá sabe-se lá de que lado, certamente daquele que menos se espera. Cabe-lhes assegurar que, apesar de não compreendermos “sequer um pouco do que está a acontecer”, ainda não é o fim do mundo, é apenas um pouco tarde. A última palavra está por dizer e talvez aquela luzinha a piscar no fundo do buraco negro seja a da grande festa que é preciso fazer em vez de simplesmente assumir que isto está tudo lixado.
Será curta e frágil, a festa, como o vaso que se parte logo no início. Sonhar com a beleza neste aterro monumental é um gesto corajoso mas profundamente ingénuo, os Baro d’evel sabem disso. E, no entanto, o que seria melhor, uma garrafa de plástico? “O trabalho com a cerâmica, há muito que eu queria fazê-lo. Nasci em Barcelona, embora viva em França há mais de 20 anos. A relação com a cerâmica de toda essa corrente catalã de pintores e artistas, Picasso, Miró, Tàpies, Frederic Amat, Miquel Barceló, toca-me muito”, diz Blaï. “Mas estamos no século XXI e não podemos trabalhar com os elementos orgânicos puros como se estivéssemos no passado. A pureza, na vida como no palco, é para nós muito difícil de defender se queremos dar conta da complexidade deste mundo; a mistura das matérias puras e impuras, sim, dá conta do sítio onde nos encontramos.”
Mas os Baro d’evel não querem apenas constatar, querem contrapropor. “Talvez o que tenhamos a propor seja frágil, ingénuo e desajeitado, mas pensamos que é a única solução. Seja como for, a beleza é a única coisa que sabemos fazer, ou que nos permitimos fazer. E ela sempre existiu, o que significa que o ser humano é capaz do melhor e do pior. Os gestos artísticos são tentativas de nos encaminharmos para o melhor, de confiar naquilo que não sabemos formular, no invisível, na intuição; de nos aproximarmos dos outros com aceitação. De escolhermos a vida, e não a morte, ou seja, de ir na direcção contrária daquela que as nossas sociedades estão a tomar. É tudo muito mais complexo do que tentam fazer-nos crer quando nos dizem que há um culpado e que basta vermo-nos livres dele para tudo se compor.”
Um ano passou e, como em França, uma extrema-direita se agigantou no parlamento português, infiltrando e influenciando a vida mesmo não estando ainda tecnicamente no poder. Não voltámos a falar com Blaï. O texto de Qui Som? continua vivo, e nunca é igual de apresentação para apresentação, pelo que não sabemos quão transfigurado aparecerá em Lisboa, ainda que a companhia trabalhe no fio da navalha da abstracção. Seja como for, o final está escrito. Estava escrito desde o princípio.
Eis então que chegam o megafone e os tambores. Eis-nos então a retomar o fôlego, a voltar a ter vontade, mesmo que nada esteja “como queríamos que estivesse” e que não possamos “controlar o que os outros pensam”; eis-nos então a apanhar os cacos. “A História cumpre-se todos os dias. Tudo o que está feito está por fazer”, grita Camille. “Construamos uma sociedade fundada no que estende a mão, no que cuida, no que abre a porta, no que dá lugar.”
“Sabíamos que queríamos terminar com aquela fanfarra, com a energia que podemos dar aos outros. Para nós, os espectáculos são cerimónias colectivas, momentos potentes que activam o estar em conjunto — que é, neste momento, o que nos parece imprescindível para podermos continuar”, remata Blaï.
Em Avignon, o público seguiu as poéticas instruções dos Baro d’evel para o levantamento, e saiu para o pátio, onde continuou a noite a dançar, a festejar, a lutar. Talvez se trate apenas de decidir se queremos ver o buraco no fundo da luz ou a luz no fundo do buraco.