Reflexão de Ana Maria Vasconcelos sobre o 35.º Festival de Almada

Terminado o 35.º Festival de Almada, partilhamos a reflexão que a pedopsiquiatra e membro do Clube de Amigos do Teatro Municipal Joaquim Benite publicou na página de facebook do TMJB, em que destaca que o Festival de Almada é um “dos momentos que, anualmente, no nosso país, contribuiu, de forma imprescindível e insubstituível, para o ócio que devemos dar a nós próprios para podermos compreender melhor o nosso mundo e a nós próprios que vivemos nesta Casa Comum de Todos os Homens.”

«Para reflectir até ao 36º Festival de Almada:

ÓCIO NÃO É LAZER!

Ana Maria Vasconcelos
Ana Maria Vasconcelos

No Encontro da Cerca, “Sob o signo das catástrofes”, António Guerreiro, alertou para a necessidade de haver tempo e espaço para o ócio, distinguindo-o do lazer, distinção fundamental neste nosso tempo de pensamento rápido em que lazer e ócio são, muitas vezes, considerados como tendo a mesma finalidade, perdendo o ócio a sua função essencial de ser um tempo para a reflexão. Se o lazer pode ser definido como uma interrupção da actividade laboral para o descanso e para o divertimento, geralmente através de uma actividade agradável e prazerosa, já o ócio é considerado, desde o tempo de Séneca, como alimento para o espírito, dedicado à contemplação da natureza e do mundo. Louvando o ócio e consagrando-o a todas as formas de cultura, das mais populares às mais intelectuais, este filósofo e dramaturgo romano considerou-o como uma indispensável actividade do espírito que nos afasta da servitude e da ignorância ao permitir o constante exercício da virtude e do auto conhecimento que formam e apetrecham o espírito com os valores fundamentais para o exercício da cidadania. Exigindo o recolhimento dos momentos de contemplação do mundo, o ócio, para Séneca, além de harmonizar os momentos de exposição da vida pública, permitia que o mundo se revelasse ao Homem e o guiasse em acções úteis para que pudesse, pelo seu agir, ser um agente de transformação na Polis.

O sociólogo francês, Pierre Bourdieu, no seu livro, “Meditation Pascaliennes” (1997), adoptou a palavra “ skholè”, palavra grega que, para além de significar “ócio”, é a raiz da palavra escola (em latim: schola), para se referir ao tempo livre e liberto das urgências do mundo que permite ao Homem uma relação livre e liberta dessas urgências e do próprio mundo, através do campo intelectual que se estende da filosofia às artes.

Convoco este tempo do ócio que, consagrado ao campo artístico e à cultura, permite o recolhimento interior que prepara para um adequado agir na Polis, para chegar à minha convicção de que os 15 dias do Festival de Almada, com os seus espectáculos (este ano foram 24 sem contar com os espetáculos de rua!), os ”Colóquios na Esplanada”, o “Encontro na Casa da Cerca”, o curso de formação “O sentido dos Mestres”, as exposições que, este ano, foram “Velho Sol” na Casa da Cerca, “A Festa”, celebrando a Parte III dos 40 anos do CTA e “O pomar das Romãzeiras” de homenagem a Yvette Centeno, para além de todo o convívio que gera no público, nos alimenta com teatro e com outras manifestações de arte e de cultura e de partilha de novas ideias e opiniões, tornando-se num dos momentos que, anualmente, no nosso país, contribuiu, de forma imprescindível e insubstituível, para o ócio que devemos dar a nós próprios para podermos compreender melhor o nosso mundo e a nós próprios que vivemos nesta Casa Comum de Todos os Homens.

Esta necessidade de reflectirmos sobre o nosso estar na Polis com uma intervenção de cidadania participativa e, ao mesmo tempo, mantermos um modo de pensar íntimo, coerente com os nossos valores e a nossa história individual, foi muito estimulada este ano ao longo do Festival com todos os temas que nos foram, diariamente, apresentados.

Acompanhados pelos 13 rostos do cartaz deste ano de Paulo Brighenti que, com a sua exposição, nos lembra que criar, exige que se vive entre a necessidade de beleza e de verdade, fomos encontrando, ao longo dos espectáculos e dos textos de suporte que os contextualizavam, muitas pistas para reflectirmos sobre NÓS, nesta nossa sociedade do risco e do medo, como Frédéric Neyrat a designa.

Com as palavras de Jean Genet, relembrámos que a morte a todos nos une e iguala.

Com o texto de Rafael Spregelburd trazido pela companhia belga, Transquinquennal, que nos interpela sobre como manter a nossa identidade com um “eu”, na sua essência mais íntima, em coerência com um “eu” no nós social, quando, pelas demandas da nossa actual “sociedade espectáculo” que se movimenta num território onde domina a contingência, existe uma permanente ameaça à coerência do íntimo.

Com as palavras de Camus, pensámos em como, quando não se tem ódio e se acredita no futuro, se combate o medo com o amor.

Com o “Manual de Leitura” da peça Lulu, onde Marta Bernardes, no seu texto, “Mais do que uma actriz, uma matriz”, referindo-se ao “estabelecimento de um paralelismo de erupções entre o espaço doméstico-psíquico e o espaço social-político”, nos questiona se é possível uma emancipação social sem a emancipação pessoal, individual, ou, como explícita, sem uma reestruturação profunda dos modos de existência nas suas dimensões íntimas e contextuais.

Com o pequeno livro “1740*”, onde os quatro actores da companhia de teatro Transquinquennal justificam a sua decisão, de porem termo à companhia dentro de 5 anos, como sendo um acto artístico que permite fazer o luto do conhecido e abrir-se à curiosidade do desconhecido, num  dos textos deste livro que elege como questão obsessiva de hoje, o modo como nos colocamos  em relação a todas as transformações que afectam o mundo, tanto positivas como negativas e, a maior parte das vezes, incertas, somos questionados se o facto deste mundo resistir aos nossos desejos e parecer distanciar-se do nosso ideal, será porque nós falhamos a influenciar essas transformações ou, simplesmente, porque nós próprios temos medo de mudar com o mundo?

Atrevendo-me a preencher o par de parênteses que o Rodrigo Francisco considera que o Festival de Almada faz no quotidiano do público que reserva a primeira quinzena de Julho para ir ao Festival, com o ócio dedicado à contemplação das actividades artísticas que permitem a reflexão original e pessoal, como Séneca o louvou e, sim, Rodrigo Francisco, porque os espetáculos que vimos este ano estimularam a nossa sensibilidade e a nossa curiosidade, fico contente por poder afirmar, como Público do Festival de Almada que, pelo menos com a realização deste ano do 35º, o mundo não resistiu aos nossos desejos nem se distanciou do nosso ideal porque, mais uma vez e, este ano, ainda com mais propriedade, o Festival de Almada, pela mão do seu Director Artístico e de toda a equipa da Companhia do Teatro de Almada, não falhou como motor das TRANSFORMAÇÕES necessárias para que, este festival de teatro mais uma vez se realizasse, recusando a “força obscura do tempo apagador” e mostrando não ter MEDO de mudar o mundo, apesar das vicissitudes que, este ano, o mundo lhe trouxe.

E, à sombra do Pomar Azul das Romãzeiras, num momento de ócio, ao reflectir sobre todos os espectáculos de teatro, dança, poesia, música que, como e com o Público do 35º Festival de Almada assisti, veio-me à memória que Camus referia que o seu mestre, Jacques Copeau, dizia que uma obra dramática deve reunir e não dividir, numa mesma emoção ou num único riso, os espectadores presentes”. E, este ano, os espectadores presentes no Festival de Almada, em conjunto, emocionaram-se e riram muito! Eu sei porque estiva lá!

Porque, ao longo de todo o festival deste ano, fomos levados a cruzar e a tentar harmonizar pensamentos que parecem estar em oposição entre si, como são os que reflectem sobre o “eu íntimo” e sobre o “eu público” e para os quais é preciso encontrar outra via de entendimento que destrone “o animal humano concorrencial” e permita uma “ressurreição”, segundo a designação de Alain Badiou, das capacidades de subjectividade do humano para que possa ser, no respeito pela liberdade, um real agente na Polis, lembrei-me muitas vezes deste quadro de Magritte, ‘Império das Luzes’ onde se cruzam a luz nocturna com a claridade do céu diurno, como se o dia e a noite brilhassem, em simultâneo, com as suas luzes próprias.»

 

29 de Julho de 2018

Ana V.

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