NATHAN, O SÁBIO

Nathan, O Sábio

Lessing em estreia absoluta

Estamos na Jerusalém do século XII, onde vive o judeu (e rico comerciante) Nathan, a quem o povo chama “sábio” pela inteligência, generosidade e ponderação que emprega em todas as suas acções. Ao regressar de uma das suas muitas viagens, Nathan é surpreendido com a notícia de que a sua casa ardeu e que, por pouco, a sua filha adoptiva não morria no incêndio. A jovem fora salva, in extremis, por um misterioso cavaleiro templário que tinha sido feito prisioneiro pelo Sultão Saladino, governador da cidade, e a quem este poupara (inexplicavelmente) a vida.
E eis os três representantes das três religiões abraâmicas: judaísmo, cristianismo e Islão.

Ao encontrar-se finalmente com o Templário, que se esquivava a quaisquer agradecimentos, Nathan consegue convencê-lo a encontrar-se com a sua filha, que se tinha fixado na ideia de ter sido salva por um anjo. E o segundo encontro entre os dois jovens resulta num amor inevitável, que já se fazia prever nas insinuações da ladina Daja, a ama cristã da jovem judia.
Só que existe um obstáculo a esta união: um segredo de muitos anos, que esconde a (trágica) razão da sapiência de Nathan, e que revela que os laços que unem os representantes das três religiões são, afinal, muito mais fortes do que o que se julgara à partida.

GOTTHOLD EPHRAIM LESSING (1729-1781) ingressa em 1746 na Universidade de Leipzig mas logo começa a frequentar o teatro, traduzindo peças francesas e escrevendo comédias. Acaba por se fixar em Berlim, vivendo exclusivamente da sua actividade literária como escritor, tradutor e crítico. Aqui, conhece vários escritores e também o filósofo Moses Mendelssohn (1729-1786), que irá inspirar a figura de Nathan, o sábio. Depois de uma curta passagem por Berlim, é convidado, em 1767, para exercer as funções de dramaturgo e crítico no projecto para fundar um Teatro Nacional Alemão em Hamburgo. A Dramaturgia de Hamburgo é o resultado desta actividade crítica. Todavia, o projecto falha e, em 1770, assume o posto de bibliotecário em Wolfenbüttel. Aí escreve o drama burguês Emilia Galotti (1772).

RODRIGO FRANCISCO (n. 1981, Lisboa), licenciado em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade de Lisboa, foi assistente de Joaquim Benite entre 2006 e 2012. É autor de Quarto minguante (2007) e Tuning (2011). Na Companhia de Teatro de Almada dirigiu os seguintes espectáculos: Falar verdade a mentir, de Almeida Garrett (2011); Negócio fechado, de David Mamet (2013); Em direcção aos céus, de Ödön von Horváth (2013); Um dia os réus serão vocês, a partir do texto do julgamento de Álvaro Cunhal (2013); Kilimanjaro, a partir de Ernest Hemingway (2014); A tragédia optimista, de Vsevolod Vichnievski (2015); Noite da liberdade, de Ödön von Horváth (2016); Bonecos de luz, a partir de Romeu Correia (2017) e Migrantes, de Matei Vişniec (2017). É desde 2013 director artístico da Companhia de Teatro de Almada e do Festival de Almada.

Quando a religião reflectia

Por Peter Gordon (Universidade de Harvard)

Escrita em 1779, Nathan, o sábio é uma das peças mais claramente apologéticas da tolerância religiosa jamais escritas. Na Alemanha vivia-se o Iluminismo, mas ainda não haviam sarado as feridas dos conflitos religiosos que o antecederam. O lema reformista “o reinado do príncipe é a sua religião” ainda não tinha colocado um ponto final nas disputas entre luteranos, calvinistas e católicos. Mas a peça de Lessing estendeu a mão da tolerância mais além da família cristã – ao judaísmo e ao Islão. Numa brilhante manobra de deslocalização, o Autor retirou a acção dramática da Alemanha do seu tempo e colocou as suas personagens numa Jerusalém meio-imaginada, na época da Terceira Cruzada, no século XII , em que muçulmanos e cristãos disputam o domínio da Cidade Sagrada. O herói da peça é o epónimo Nathan, um judeu piedoso que vive com a sua filha adoptada e a sua criada cristã. O ápice dramático consiste no confronto ideológico entre Nathan e Saladino, o sultão egípcio que governa a cidade.

A parábola dos anéis
Saladino coloca um desafio ao judeu: das três religiões monoteístas, só uma pode ser a verdadeira. Mas naturalmente que um homem tão sábio como Nathan não se limitaria a obedecer ao mero acidente circunstancial de ter nascido judeu. Se se mantém judeu é porque existe uma boa razão para tal. E portanto Saladino pede a Nathan que justifique a sua fé. Nathan começa por ficar perplexo – pensava que Saladino apenas o tinha mandado chamar para lhe pedir dinheiro emprestado – mas consegue ter o sangue-frio suficiente para se explicar com a parábola que passo a contar: “Era uma vez um homem que tinha um anel com propriedades mágicas. Quem o possuísse era amado por Deus e pelos homens. Quando o homem morreu, o anel foi passando de geração em geração, até que foi parar às mãos de um pai com três filhos. Uma vez que amava os seus filhos por igual, esse homem pediu a um joalheiro que fizesse duas cópias exactas do anel original. O pai dá então um anel a cada um dos três filhos e morre, deixando-os com o problema de descobrir qual o anel verdadeiro. Depressa se instala o conflito, e o caso é levado a um juiz, com cada um dos irmãos a reclamar que o anel verdadeiro é o seu. O juiz lembra-os de que a jóia original tinha o poder de fazer com que o seu proprietário fosse amado por Deus e pelos homens. Mas na presente disputa os irmãos tinham passado a odiar-se. O juiz, arguto, conclui que nenhum dos anéis pode ser o original – que deve ter-se perdido. Mas propõe uma alternativa: cada irmão deve passar a acreditar que o seu é que é o anel verdadeiro. Afinal de contas, talvez o seu pai quisesse ter acabado com a tirania de haver só um anel. O juiz admoesta então os irmãos para que respeitem a vontade do pai de se amarem uns aos outros, e que cada um ultrapasse os outros no que toca à benevolência. Um dia, se calhar daí a ‘dois mil anos’, talvez um juiz mais sensato seja capaz de dizer qual o anel verdadeiro”. Saladino fica tão comovido com esta história que declara Nathan como seu amigo eterno. Lessing foi buscar a parábola dos anéis ao Decameron de Boccaccio, mas era também um apoiante da causa judaica, numa época em que os judeus ainda não tinham visto serem-lhes garantidos direitos civis.

Apologia da tolerância
O modelo de que se serviu para criar Nathan foi o seu amigo e filósofo judeu Moses Mendelssohn (avô do famoso compositor). O resto da peça inclui ainda uma série de reviravoltas no enredo que levam a uma revelação inesperada: acaba por se descobrir que a filha adoptiva de Nathan afinal é cristã de nascimento, e que o cavaleiro templário seu pretendente é, na verdade, seu irmão. Descobre-se ainda que ambos são filhos de um cavaleiro muçulmano, entretanto morto, que era irmão de Saladino. No final, as personagens abraçam-se ao cair do pano. Talvez o público de hoje em dia seja demasiado cínico para aceitar o optimismo de uma peça iluminista: as revelações que unem as personagens numa feliz consanguinidade, no fim da peça, são um tanto forçadas. E é justamente nessa força que consiste o radicalismo filosófico do seu Autor.

“Lessing é, evidentemente, de entre todos os alemães do seu tempo, aquele cujo conceito de arte foi o mais diáfano; aquele que pensou mais profundamente e, ao mesmo tempo, da maneira mais liberal; e aquele que compreendeu o essencial, o decisivo, da forma mais sensata.”
Friedrich Schiller, Carta a Goethe, 1799.

“Lessing exerceu uma influência vastíssima e radical em toda a literatura alemã”
Friedrich Schlegel, “Über Lessing”, 1797.

12 a 28 JANEIRO, 2018
| Qua a Sáb às 21h | Dom às 16h | SALA PRINCIPAL | M/12

mais informação no site da CTA

veja também

MÁRTIR

Mártir

23 NOVEMBRO a 16 DEZEMBRO, 2018 | SALA EXPERIMENTAL