Morte de um caixeiro-viajante

Morte de um caixeiro-viajante

O típico herói do ‘Sonho Americano’

Apróxima criação da Companhia de Teatro de Almada é um clássico do teatro norte-americano: Morte de um caixeiro-viajante. Esta é a obra mais famosa e representada do escritor Arthur Miller, estreada na broadway em 1949, e que lhe valeu, no mesmo ano, o Prémio Pulitzer.
o autor propõe uma crítica social e, ao mesmo tempo, constrói uma história sobre um conflito psicológico e moral. Estamos perante um drama social e familiar que decorre na América do final dos anos 40 do século passado, e que conta a história da família de Willy loman, um vendedor de 63 anos que, apesar de sonhar com o sucesso, vê a sua vida familiar e profissional ruir. Existe uma falha entre aquilo que ele é e o que aspira ser, pois Willy é um homem com sonhos maiores do que aquilo que a sua vida prosaica lhe pode oferecer. E, ao ver-se desempregado, depara-se com a triste realidade de ter lutado toda a sua vida por falsos valores, que o levam ao declínio.
A peça propõe dois planos de acção: o da vida presente de Willy loman e o da sua imaginação. o protagonista vive ainda uma relação ambígua com o filho, biff, no qual projecta o sucesso que ele próprio gostaria de ter alcançado. Willy é o típico herói do Sonho Americano, que, segundo o encenador, Carlos Pimenta, nos deixa “com a amarga sensação de nos termos cruzado ontem com personagens semelhantes”.

Arthur Miller

ARTHUR MILLER (1915-2005) foi um importante escritor norte-americano, autor de peças de teatro, romances e até de um argumento cinematográfico, escrito para a sua segunda esposa: Marilyn Monroe. as suas primeiras peças datam da sua passagem pela Universidade de Michigan. Morte de um caixeiro-viajante, surgida em 1949, consagrou-o como dramaturgo e valeu-lhe o Prémio Pulitzer. Miller recebeu também, por duas vezes, o new York Drama critics award.

Carlos Pimenta

CARLOS PIMENTA já encenou mais de duas dezenas de espectáculos de autores como Beckett, ibsen, racine, Handke, Mamet, Mishima ou Marguerite Duras, nas principais salas do País. Para a cTa dirigiu Variações à beira de um lago, de David Mamet (2008), e Dois homens, de José Maria Vieira Mendes (2009). Para além da sua actividade como encenador, é professor na Universidade lusófona.

Entrevista com Arthur Miller

Assistiu à estreia de “Morte de um caixeiro–viajante” há 50 anos atrás?
Com certeza. Eu estava lá e assisti a todos os ensaios. Costumo estar muito envolvido nos ensaios das peças. Aprimeira produção foi – como hei-de dizer – mais romântica. O cenário era apenas uma casa com uma carga simbólica. Parecia que podia ser levada por uma brisa. O cenário actual está mais resis­tente, mais branco e preto, como oposição à cor. E o novo cenário gira e muda, enquanto no primeiro nada se movia. É uma questão de gostos. Penso que ambas as opções têm as suas vantagens.

Em quem se inspira a personagem do Willy Loman?
Conheci muitos vendedores na minha vida. Ele é uma espécie de conjunto de muitas pessoas: um tio meu, por exemplo. Eventualmente che­gas a criar algo que não tem fundamento em nada. Uma criação da tua mente. Ele fez isto, neste caso.

Quem acha que foi o melhor Willy Loman?
O meu preferido provavelmente foi o do Lee Cobb, o primeiro actor a interpretar esta per­sonagem. Arazão, mais provável, está ligada à originalidade da encenação, ao momento da descoberta da peça. Tive muitos bons actores neste papel – George Scott e Dustin Hoffman, entre outros – mas o ardor da descoberta é o da primeira vez.

Qual pensa ter sido a razão para esta peça se manter em cena por 50 anos? O que é que faz dela um clássico?
É uma pergunta difícil de responder por causa da minha danada proximidade à peça. Ima­gino que as pessoas estejam interessadas na história pelo facto de ela ser muito verosímil. E as personagens são pessoas que elas com­preendem e que as comovem. Hoje em dia, muitas peças são fragmentadas. Não são a re­velação incessante duma história, como é esta. Esta continuidade faz com que as pessoas fi­quem mais envolvidas. O Willy vive nos nossos tempos, num sistema de valores que tende a desvalorizar o indivíduo ao ponto, de uma vez chegado a uma certa idade, poder ser deitado fora. Aresposta a tudo isto é económica e po­lítica, mas o contexto da peça é algo que pre­ocupa muitas pessoas. Talvez tenha sido uma combinação de todos estes factores a tornar a obra tão popular nos Estados Unidos e no resto do mundo.

Quando criou a personagem de Willy Lo­man, o Arthur Miller era um jovem. Sente–se ligado de maneira diferente a esta per­sonagem, hoje?
É uma pergunta interessante. Agora, com a minha idade, tendo frequemente a tomar mais o partido dele do que antes. Criei-o com 33 anos e agora ele tem uns sessenta. Penso que tomo mais o partido dele agora, quando dis­cute com os filhos. Objectivamente, continuo o mesmo que era quando tinha 33 anos, mas subjectivamente tomo mais o partido dele hoje. Isso mudou.

A que personagem das suas obras está mais ligado nesta fase da sua vida?
Sabe, eu estou repartido. Um escritor repar­te-se entre as personagens que cria. Não te­nho a certeza de que exista uma personagem com a qual me identifique mais do que com as outras. Gostava de identificar-me com o John Proctor nas “Bruxas de Salém”. Penso que é uma boa pessoa para se ser, mas não sei se estou à altura. É uma pergunta difícil de responder.

Considero “Morte de um caixeiro-viajan­te”, “Um eléctrico chamado desejo” de Tennessee Williams e “Longa jornada para a noite” de Eugene O´Neill um apelo à sen­sibilidade para os abandonados da socieda­de. Pensa que a arte pode sensibilizar as so­ciedades para este problema de forma mais eficaz do que a imprensa e outros meios?
Penso que a arte pode fazer tudo de maneira mais eficaz do que a imprensa. Amitologia que faz parte das nossas vidas não provém da imprensa. Ela vem da Bíblia, da literatura, da mitologia dos países. Os fundamentos daquilo em que acreditamos provêm da arte. As notí­cias e afins desaparecem das nossas cabeças demasiado rapidamente. São as coisas que re­cebemos da arte (e falo da Bíblia tanto como uma obra literária, quanto como um livro sa­grado) aquelas que guardamos.

Em relação ao seu processo criativo, costu­ma ter uma revelação ou surge-lhe de uma ideia, moldando-a até começar escrever?
Ambas as coisas. Costumo moldá-la até a re­velação aparecer. Se isto não acontecer, con­tinuo por outros caminhos. É um processo de conexão profunda com algo e, se isto não se verifica, não conheço outras hipóteses de o fazer acontecer. Por consequência, existe um longo intervalo no processo criativo enquanto esperas que isto aconteça.

Deixava algumas dicas ou orientações so­bre diálogos comoventes ou sobre a escrita no geral aos aspirantes escritores?
Bem, podia falar durante semanas e acabar simplesmente dizendo que a maneira certa de escrever é escrever, e ler, e observar. Não exis­te uma solução fácil para os problemas que encontras enquanto escreves, excepto acredi­tares em ti mesmo, na tua visão, e seguires a tua imaginação até aonde esta te levar. Não sei o que dizer mais.

Entrevista efectuada duranteas reposições de Morte de um caixeiro-viajante na Broadway 21/02/1999

Quando um homem sabe o que quer só tem um caminho a seguir – atirar-se para a frente

13 JABRIL a 06 MAIO, 2018
| Qui a Sáb às 21h30 | Qua e Dom às 16h | SALA PRINCIPAL | M/12

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