A boa alma de Sé-Chuão

Depois de A excepção e a regra, Mãe Coragem e seus filhos, A mãe e Santa Joana dos Matadouros
CTA apresenta A boa alma de Sé-Chuão

Rita Cabaço foi distinguida em 2017 com o Globo de Ouro e com o Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores pela sua interpretação em A estupidez. Em Janeiro deste ano protagonizou Actores, de Marco Martins. A actriz trabalhou ainda com Luis Miguel Cintra e foi co-fundadora do Teatro da Cidade em 2015.

O encenador de Berlim, Peter Kleinert, encena A boa alma de Sé-Chuão com um grupo de jovens actores portugueses. Sete actores interpretam mais de vinte papéis. Cheio de ritmo e de contrastes, cria-se um jogo cómico dentro de outro jogo, com muita música sob a direcção de Pedro Melo Alves, que adaptou a música de Paul Dessau, escrita há cerca de 80 anos, criando novos arranjos. Assistimos a um concerto rock de significado profundo, e a uma tragédia amorosa com travo amargo. Em busca de uma consciência política actual, Kleinert e o seu jovem ensemble questionam a parábola moderna de Brecht, num mundo que necessita de almas boas mais do que nunca.

Bertolt Brecht nasceu na Alemanha em 1898. Com o compositor Kurt Weill escreveu a célebre Ópera dos três vinténs em 1928. Com a ascensão ao poder do nacional-socialismo, em 1933, Brecht partiu para o exílio, primeiro para a Dinamarca e depois para os Estados Unidos da América. Na Alemanha, era-lhe retirada a cidadania e os seus livros eram lançados à fogueira. No entanto, seria justamente entre 1937 e 1941 que escreveria algumas das duas maiores peças (nomeadamente Mãe Coragem e os seus filhos, com música de Paul Dessau; A vida de Galileu e A boa alma de Sé-Chuão) e alguns dos seus melhores ensaios, diálogos e poemas. Em 1948, Brecht regressou a Berlim, na então República Democrática Alemã, e fundou o Berliner Ensemble, companhia com a qual levou à cena a sua obra dramática. Faleceu em 1956. É hoje considerado um dos maiores dramaturgos e teóricos teatrais do século XX.

Peter Kleinert co-encenador de A excepção e a regra (1981), o espectáculo que valeu a Canto e Castro o prémio de Melhor Interpretação da Associação Portuguesa de Críticos de Teatro.

Após concluir a sua formação em Filosofia, Peter Kleinert iniciou o seu trabalho como dramaturgista e encenador em vários teatros da antiga República Democrática Alemã. Destacam-se, designadamente, as suas encenações em Dresden, Schwerin e Weimar onde, enquanto co-director, liderou a secção de interpretação no Teatro Nacional Alemão. Nos anos 90 Kleinert iniciou a sua carreira de professor de dramaturgia e encenação. Seguidamente, assumiu o cargo de director do Departamento de Encenação da Escola Ernst Busch, em Berlim, função que desempenha há mais de duas décadas. Encenou numerosas peças de Brecht em academias de teatro e teatros em Glasgow, Lyon, Salzburgo, Sydney, Pittsburgh e Nova Iorque. Como dramaturgista colaborou com Thomas Ostermeier, em Amsterdão, Lausana e no Festival de Salzburgo. Desde 2011 encena, com maior regularidade, espectáculos com os estudantes da Escola Ernst Busch na Schaubühne de Berlim.

Pode ser-se bom num mundo cruel?

Poderá alguém viver de acordo com a máxima “ser uma pessoa boa e ainda assim viver bem”? Poderá alguém ser moralmente impoluto numa sociedade em que o egoísmo, a corrupção, a exploração e a ganância crescentes são características que teimam em prevalecer? Num mundo onde a igualdade de direitos não se aplica a todos, mas apenas a alguns? Onde bens, direitos e privilégios, a educação, a riqueza, o trabalho e os recursos estão ao alcance de poucos, enquanto outros vivem excluídos, oprimidos, discriminados ou escravizados? É possível ser-se bom num mundo cruel? Podemos mimar-nos e, ao mesmo tempo, abstrair-nos da miséria do mundo? Ser bom, neste mundo, significa pôr em risco a nossa vida boa, pôr em perigo a nossa própria prosperidade.

A boa alma de Sé-ChuãoBertolt Brecht coloca questões de enorme relevância na sua parábola com quase 80 anos. Perante as catástrofes da fome, as guerras e as crises de refugiados do nosso mundo, a questão de como viver com consciência limpa está a tornar-se cada vez mais fundamental e nuclear. Nesta sua parábola, Brecht envia três deuses em busca de boas almas à província chinesa de Sé-Chuão, paradigma de todos os lugares onde os ricos ficam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Os deuses têm a missão de procurar boas almas. Se as encontrarem, o mundo pode permanecer como está. É esta a sua vontade.

A boa alma de Sé-ChuãoEm Sé-Chuão, a jovem prostituta Chen Te é a única que oferece aos deuses alojamento por uma noite. E, por isso, receberá uma recompensa em dinheiro. Com esse dinheiro, pode pensar numa existência longe da prostituição, e é assim que promete aos deuses manter-se uma boa alma e abrir uma tabacaria. Mas rapidamente as contas têm de ser pagas. Cada vez mais pessoas pressionam Chen Te para obter ajuda e asilo. As despesas disparam e a loja ameaça falir. O barco está cheio.

A boa alma de Sé-ChuãoChen Te é forçada a criar um alter-ego. Desaparece e surge como Chui Ta, um primo que acredita mais na disciplina empresarial do que nas esmolas, salvando assim a loja da falência. Mas logo Chen Te se apaixona pelo aviador desempregado Sun, que também precisa de dinheiro. A loja está novamente arruinada. Da forma mais dolorosa, ela descobre que, neste mundo, ninguém deixará de ser punido se for bom apenas para os outros, e se não pensar também no seu próprio interesse.
Quando Chen Te é abandonada pelo seu amado, está à espera de um filho e fica novamente perante o vazio. Só há uma saída: o primo tem de voltar. Com disciplina e sentido de negócio, deve cuidar da mãe e do filho por nascer.

A boa alma de Sé-ChuãoO primo organiza então um lucrativo comércio de narcóticos e funda uma fábrica de tabaco em expansão, que dá trabalho aos pobres, mas em más condições. Só que no corpo do primo malvado, de coração duro, bate o coração mole da boa Chen Te, e a figura dupla ameaça rasgar-se. Por quanto tempo pode manter-se este jogo? Além disso, as restantes personagens começam a desconfiar. O jogo duplo de mulher boa, mas sem dinheiro, e homem malvado, mas economicamente bem-sucedido, ameaça ruir.

Que dirão os deuses sobre isto?

texto de Bertolt Brecht
encenação de Peter Kleinert

Intérpretes Beatriz Godinho | Érica Rodrigues | Inês Garrido | João Tempera | Miguel Raposo | Pedro Melo Alves | Rita Cabaço | Tomás Alves | Tradução: António Sousa Ribeiro | Direcção musical: Pedro Melo Alves | Cenografia: Céline Demars | Figurinos: Ana Paula Rocha | Desenho de luz: Guilherme Frazão | Desenho de som: Miguel Laureano | Assistência de Encenação: Aziza Hecht e Henrique Gomes | Assistência de figurinos: Carolina Furtado

mais informação no site da CTA

 

19 OUTUBRO a 11 NOVEMBRO, 2018 | SALA PRINCIPAL
Quinta a Sábado às 21h00 | Quarta e Domingo às 16h
SALA PRINCIPAL | M/12 | Duração: 2h00 (aprox.)

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